#365Posts – Padrão de consumo × padrão de vida

Uma história pessoal de ponderação entre desejo e possibilidade, padrão de consumo e padrão de vida.


Não que seja um costume meu ficar de ouvido nas conversas alheias, mas dia desses flagrei uma pessoa que decididamente não tem grana ostentando por aí com um carro importado cuja documentação estava atrasada. Mais recentemente eu soube que ela fora alijada de seu brinquedo, pois devido à irregularidade do veículo este ficou preso numa blitz ou coisa parecida.

“De carro novo e me devendo, hein?!” — POPULAR, Chavão

O fato é que até as pessoas menos materialistas e consumistas se deixam, sim, levar pelo impulso que rege a nossa sociedade. O consumo é que faz a economia funcionar, é graças a ele que a riqueza é gerada e distribuída (bem ou mal não importa, não é meu objetivo analisar agora).

Eu mesmo estive prestes a fazer uma besteira imensa.

Graças a tudo que há de mais sagrado (meu esforço, inclusive) tenho no momento um carro novo, recém completou 10.000km rodados na minha mão. É o meu primeiro carro zero, e foi uma conquista resultante de anos de economia e muita ponderação. Por exemplo: só comprei o carro quando ele realmente se fez necessário, quando fui embora do Rio de Janeiro, pois enquanto morei na capital mais linda e mais maltratada que conheço o transporte coletivo e o táxi resolveram minha vida com excelência.

Mais ou menos na mesma época comprei um apartamento no interior de São Paulo, porque depois de fazer as contas constatei que pagar a prestação do financiamento sairia mais barato do que alugar o mesmo imóvel.

Contudo, morei por pouco tempo no meu apartamento, e acabei mudando para Recife.

Aí pus meu apartamento à venda, mas sem muita convicção de que era isso que eu realmente queria. Afinal, um imóvel comprado em condições tão favoráveis (o que por si só já é raro), em valorização, numa cidade bacana, etc, é sempre um patrimônio bom de se ter. Pode não representar liquidez (pois não é fácil vender um imóvel pelo preço que vale), mas é um bom investimento.

Então, um belo dia, decidi que ao vender o apartamento pegaria o dinheiro que juntasse dele, somaria ao valor do meu carro atual (na foto abaixo, tirada no dia que ele saiu da concessionária), e compraria uma Range Rover, sonho de consumo de qualquer um que goste de carro e saiba o que é bom.

Felizmente a burrice não é uma coisa irreversível, e eu logo caí em mim novamente: eu não preciso de um carro mais caro que o meu, nem de um maior, ou mais possante. Eu posso desejar muito isso tudo, mas não preciso. A rigor, eu nem preciso de carro, pois de casa para o escritório são apenas 15min de caminhada, insuficientes até mesmo para começar a queimar a gordura do corpo.

Depois de pensar melhor sobre o assunto decidi que, caso apareça um comprador para o apartamento de Ribeirão Preto, vou vendê-lo, sem dúvida. Porém, em vez de torrar a grana em um carro de alto valor, alto imposto, alto custo de manutenção, vou é manter meu Ecosport que até então vem servindo muito bem — e assim vai permanecer — e comprar um apartamento aqui em Recife.

Afinal de contas, eu sei que deitar a cabeça no travesseiro e preocupar-me apenas com o que vai ter (ou não) para o café da manhã é um privilégio muito maior do que o de andar em um Range Rover torcendo para nunca acontecer nada com o carro porque eu nem saberia como arranjar dinheiro para pagar a revisão ordinária, imagine uma manutenção inesperada.

Consumir bastante é legal, quando se têm condições para tanto, e quando isso não é uma “arma” para agredir os de menos posses. Mas quando os recursos são limitados, utilizá-los sabiamente é muito melhor, porque não tem dinheiro que pague pela tranquilidade da gente. A minha, pelo menos, não está à venda.

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Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

6 comentários

  • Rodrigo Schiafino:

    Aqui em casa temos uma Ecosport, das antigas. É um carro muito confortável. Imagino que essa nova,com as novas tecnologias, não deva nada para uma Range Rover (a não ser o Status).

    Eu tenho um Ford Focus (primeira versão) que eu fiquei meses juntando para comprar a vista e já perdi as contas de quantas vezes me perguntaram porque eu não ~troco esse carro velho~. Porque ele me leva pra onde preciso e tem tudo que eu preciso no momento para um carro, uai.

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    • Janio Sarmento:

      Na verdade, depois de andar num Range Rover a Ecosport parece uma carroça. 🙂 Aliás, uma carroça mal acabada e cheia de furos de projeto.

      Mas ainda assim, na cidade prefiro andar de Ecosport do que de charrete ou a pé.

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      • Martin Balerio:

        Eu concordo e discordo, não compraria uma Evoque, mas também não compraria um apartamento em Recife, acho que a bolha imobiliária está quase estourando e quem já comprou apartamento agora está com dificuldade para vender e mesmo alugar o mesmo. Acho que guardaria o dinheiro (tentaria, pelo menos, aplicar) e veria o que acontece depois da copa, ou até mesmo, das olimpiadas.

        4cents

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      • Rodrigo Schiafino:

        Sério? Jurava que nessa nova versão eles tinham resolvido os problemas que todos reclamam da versão anterior.

        Responder
  • gi:

    E o ap? Ainda está disponível para compra?

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