#365Posts – O Porre

Deu saudade de escrever ficção.

11 de outubro de 2013 • Por Janio Sarmento, em #365Posts, Ficção

Ontem à noite fiquei deprimido. De repente a casa, imensa, vazia, me fez ficar sorumbático e pensabundo, e não tardou para que a tristeza abrisse as asas sobre mim.

Resisti tanto quanto pude à tentação de afogar a tristeza na comida. Talvez o fato de não ter nenhuma comida em casa tenha ajudado um pouco. Talvez.

Quando não aguentei mais, decidi: “hoje vou beber um litro de uísque, ou uma garrafa de vinho.”

Teria eu incontinenti seguido para a adega, caso eu tivesse uma. Assim, rumei para a cozinha. E assim como não tenho adega em casa, assim como na geladeira e nos armários eu não tinha comida, tampouco achei uísque nem vinho. Vodca muito menos.

Eu só tinha água em casa. Dois litros de água mineral da marca Iaiá. Estupidamente gelados.

Diz o ditado que quem não tem cão caça como gato, e eu resolvi me virar nos trinta: havia decidido que iria beber, e assim seria.

Botei no Spotify uma playlist bem deprê, assim como meu humor, e bebi até a última gota de água mineral que eu tinha em casa. Sorvia cada gole com paciência e vagar, com o mesmo respeito que teria se estivesse bebendo uma cachaça daquelas azuladas, das quais só o cheiro já nocauteia os incautos.

Der Säufer, 1804 - Georg Emanuel Opitz (1775–1841)

Der Säufer, 1804 – Georg Emanuel Opitz (1775–1841)

Enquanto bebia e afogava o desencanto em água levemente alcalina com traços de radioatividade na fonte, porém estupidamente gelada, alternando as companhias de Roy Orbinson, Bill Medley e Lobo nas picapes, aproveitei para ir resolvendo assuntos pendentes no computador. Cada gole de H2O, temperado com o que Gaia bem escolheu era acompanhado de um email enviado, de uma conta paga, de uma olhadela camuflada num ou noutro Tumblr de libertinagem e fornicação.

Fui dormir exausto, como sói acontecer aos beberrões.

O lado bom é que, embora custando apenas R$ 3,00 a garrafa de vinte litros, no dia seguinte acordei com zero de ressaca, como se tivesse tomado champanhe de R$ 2.000,00 a garrafa. Duvido uma farra que pudesse ter um custo/benefício tão favorável quanto esta.

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