#365Posts – O dia em que Madre Teresa de Calcutá me fez chorar

A divulgação da correspondência pessoal de Madre Teresa de Calcutá revelou o seu mais guardado segredo: ela perdera a fé.

madre-teresa-1-784x1024Todo mundo sabe quem foi a Madre Teresa de Calcutá: vencedora de um Nobel da Paz, devotou a vida a ajudar os desafortunados, num exercício constante de solidariedade e cuidado com os doentes.

Há quem diga que a religiosa não era tudo isso, e que desviava para o Vaticano dinheiro grosso  que deveria ser para cuidar dos doentes. Ela mesma teria dito que sua vocação era baseada numa fé inquestionável.

Honestamente? Não sei se isso é verdade, e apesar de tudo o que sempre se soube publicamente sobre ela, nunca havia sentido um pingo de empatia nem pela pessoa nem pela obra. Talvez vidas passadas expliquem, mas não importa.

[sws_pullquote_right] “Onde está minha fé? Mesmo no mais íntimo… não há nada a não ser vazio e escuridão… Se existe Deus — que por favor me perdoe.” [/sws_pullquote_right]

Entretanto, hoje li uma notícia que me fez chorar de identificação com a freira: Letters Reveal Mother Teresa’s Secret (Cartas Revelam o Segredo de Madre Teresa). Se você lê em Inglês, sugiro que leia a matéria original (é bem curtinha, no site da CBS News).

A matéria dá conta que o último desejo dela não foi atendido: que sua correspondência pessoal com superiores hierárquicos, amigos, correspondentes de sua mais alta confiança, fosse totalmente destruída e que seu teor nunca viesse a público.

Tais cartas mostram uma face secreta do ícone do altruísmo e da abnegação: ela teria perdido totalmente sua fé em Deus, e um de seus maiores temores era descobrir-se como uma hipócrita.

[sws_pullquote_left] “Para o que eu trabalho? Se não há Deus, não pode haver alma. Se não existe alma então, Jesus, Você também não é verdadeiro.” [/sws_pullquote_left]

As cartas estão sendo juntadas pelo Reverendo Brian Kolodiejchuk para que se anexem ao processo de canonização da freira junto ao Vaticano (ou seja lá como se chame o processo de “elevar” um mortal à categoria de santo). Pessoalmente, acredito que as cartas não serão obstáculo no processo, pelo contrário, farão com que sua santidade seja ainda mais considerada, afinal ela nunca parou de fazer o que fazia, a despeito de ter perdido sua fé.

Isso, claro, sem contar que se realmente o Vaticano aceitava que ela desviasse dinheiro dos indianos moribundos para os cofres da Santa Sé, seu passaporte já deve contar com pelo menos metade dos carimbos necessários para ir para o céu dos santos.

O fato é que com ou sem defeitos e “podres”, Madre Teresa viveu muitos anos de sua vida num embate íntimo que a maioria das pessoas jamais vai ter, porque poucos são os que se questionam, seja na fé, seja no ceticismo. Ela saiu do extremo da fé (“inquestionável”) e foi para a negação. Mas nem assim parou de fazer caridade.

E mesmo que ela tenha realmente desviado milhões para o Vaticano, ainda assim ela fez mais pelos desvalidos do que eu jamais farei numa vida inteira, talvez nunca tenha feito nem somando todas as minhas vidas passadas.

A mim, que sempre me considerei um homem de pouca fé e de pouca coragem, saber que até mesmo a Madre Teresa de Calcutá tinha terríveis dúvidas existenciais já anciã é um indicativo de que, bem, alguma coisa eu devo estar fazendo certo, por mais que eu não saiba reconhecer.

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Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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