#365Posts – Manifesto pelo direito de reclamar

Este é um manifesto pelo direito inalienável que a pessoa tem de reclamar, dentro de seus próprios termos, como melhor lhe aprouver, e que as outras pessoas à volta respeitem o momento e se eximam de fazer comentários ou tentar dar liçãozinha de moral no reclamante.


complaintAs nações têm suas Constituições, documentos escritos para sintetizar normas que regem o convívio entre as pessoas. O ser humano é caracterizado pela sua ausência de bom senso, naturalmente, ou essas regras — basicamente direitos e deveres das pessoas — nem precisariam estar no papel: bastaria cada pessoa ter um pingo de noção de si mesma e do próximo, e viver de acordo com o que sugere a lógica, que jamais se fariam necessárias as leis escritas, e haveria muita gente tendo de vender sanduíche natural na praia por conta do fim dos empregos ligados ao sistema judiciário.

Entretanto, segundo me consta, todas as Constituições do mundo são incompletas no mister de preservar os direitos inalienáveis da pessoa: nenhuma delas assegura o sagrado direito de reclamar.

Emenda Constitucional e punições

Se houvesse um parlamentar qualquer que me representasse, eu escreveria a ele uma longa carta sugerindo uma emenda à Constituição, para corrigir este problema.

Afinal de contas, deveria ser garantido a toda pessoa o direito de reclamar, resmungar, refunfunhar ou seja lá qual for o verbo que se queira usar, a qualquer tempo em local privado, para fins de catarse de emoções bloqueadoras do potencial criativo ou do mero bem estar.

Deveria haver uma lei complementar punindo qualquer um que se manifeste contrário ao comportamento do refunfunhão — observada, claro, a questão do local apropriado para as reclamações.

A primeira punição a ser definida, aliás, deveria ser contra o refunfunhão que dá showzinho de baixaria em público. Se quiser reclamar sem critério, vá para o seu espaço e reclame à vontade. Se quiser reclamar em público, mantenha a discrição e a educação, ou que vá em cana.

A segunda punição, e a mais importante, deveria ir para aqueles que têm a condição de entes queridos, ou familiares, ou cônjuges, que em vez de cumprir sua obrigação de apoiar incondicionalmente utilizam-se de expressões do tipo “calma”, visando acintosamente a tolher o direito constitucional ao ranço.

Tudo mundo sabe que o caminho para o inferno é pavimentado de boas intenções. E justamente este tipo de boa intenção, que leva ao inferno, é a desculpa que estes parentes, amigos, chegados e colegas usam para justificar o crime hediondo de capar a manifestação de um filho de Deus.

O direito de refunfunhar é sagrado. E tenho dito.

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#365Posts – Manifesto pelo direito de reclamar

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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