#365Posts – Eu não tenho filhos, mas sou pai

Neste artigo, Sergio Grigoletto estende a reflexão iniciada anteriormente, tecendo comentários a respeito de paternidade, solidão e independência emocional.


education-graphics_1084416aQuem leu meu artigo anterior a esse (Solidão, o mal do século) atentou para as dependências emocionais que nos mantêm sentindo a vida.

Família é fonte de primária do auto-reconhecimento, de identificação do ser. O núcleo familiar, por mais extravagante e/ou alterado que ele seja, é onde o indivíduo encontra a segurança emocional, a máxima “Família é tudo” não é apenas no dizer, ela é mesmo!

Embora o caráter estrutural da família tenha acontecido de modo patriarcal pela direção, pelo conteúdo ela é matriarcal. Inclusive, deve-se ao espécime feminino o nascimento da família, foi uma partícula originada no seio dos bandos dos primeiros hominídeos, o australopiteco que se solidificou pelos clãs, tribos e nações.

Uma fêmea desses hominídeos, com cria, não tinha como ir à ou coleta com a mesma agilidade dos machos e fêmeas sem crias. E repudiava com violência os machos quando esses não voltavam com comida “para casa”, ela tinha que se alimentar por ela e pelo filhote.

E desse “sem comida, sem sexo” contínuo, tivemos a força motriz do nascimento do núcleo familiar.

São nas famílias que se denotam forte as relações de segurança emocional, por domínios psicológicos. As personalidades dominantes e dominadas, difusas entre marido, mulher e filhos.

Tomando apenas a relação paternal-filial é natural que os pais projetem nos filhos os seus próprios anseios, o que não puderam ter e fazer por si, querer para os filhos. Isso naturalmente cria uma relação além do compromisso de sustentar e educar, eis que o filho tende a ser um apêndice psicológico. E isso não é errado nem evitável!

No entanto, como dizem que o cachimbo faz a boca torta, passam-se os anos e pais não atentam para as mudanças do mundo, as mudanças que as gerações que chegam assimilam das novidades, da cada vez maior fartura de informações a que as novas gerações estão sujeitas, são bombardeadas.

Cumpre então, o distanciamento, o gradual rompimento do cordão umbilical emocional. Um indivíduo que se forma JAMAIS será clone de outro, seu cérebro, seus circuitos memoriais e sua percepção das coisas da vida serão outras, ele é outra pessoa, outra personalidade que terá que escrever sua história. (“Antes de ler o livro que o guru lhe deu, você tem que escrever o seu” — Raul Seixas)

Um filho tenderá a mais facilmente desprender-se emocionalmente de seus pais que o inverso. Pais, pela necessidade de continuidade de seu “projeto” de darem ao filho tudo que não tiveram, inclusive atenção, criam uma dependência de reconhecimento, de cobrança de proximidade, até. É o mito do filho ingrato.

Saber se desapegar, ter uma vida emocionalmente independente dos filhos é questão de conhecimento e exercício disso.

Não ter filhos é prescindir até da presença física deles, quanto mais de sua atenção, para se manter emocionalmente equilibrado, seguro, confiante em si.

Ser pai é presença permanente no consciente do filho, estando vivo ou não, ser mocinho ou bandido, a aura envolvente necessária à identificação do filho como indivíduo, enquanto ele escreve sua própria história.

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Sergio Grigoletto

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