#365Posts – Estamos Todos Doentes

A sociedade está doente. Nós somos a sociedade. Logo, nós estamos todos doentes.


378px-Killer_ClownÀs vezes eu me privo de escrever por aqui por causa de uma mania que tenho de não gostar muito de ficar falando o óbvio. Assim como não gosto de ouvir (ou ler) coisas óbvias o tempo todo, também acho que meus leitores vão se incomodar.

Como neste momento, em que eu quero escrever sobre algo tão óbvio que me sinto envergonhado: a nossa sociedade é composta 100% por doentes; todos nós somos doentes nessa coletividade, inclusive você e eu (já que duvido que mestres ascensionados leiam meu blog).

O que me inspirou a escrever este texto foi um comentário que li no Feice:

OUtro dia um homem jogou o celular de um cara pela janela do onibus ,por causa de musica alta , eu gostei bem

Clica que engrandalhece. Mas o texto diz: “outro dia um homem jogou o celular de um cara pela janela do ônibus, por causa da música alta, eu gostei bem”.

Lembro de um episódio do qual fui protagonista lá pelos idos de 2009, quando eu abri mão da educação que meus pais me deram (é sério, eu fui um sujeito muito bem educado, saí de casa com a educação mais perfeita; se degringolei a responsabilidade é toda minha) para mandar dois caras agirem com um pingo de respeito pelas outras pessoas que estavam num ônibus. Leia agora.

Mas voltando ao meu ponto: a senhora do comentário acima admite que apreciou que o homem jogasse o telefone do rapaz pela janela do ônibus, e se eu estivesse lá teria gostado também (contanto que o rapaz e o celular não fôssemos eu e o meu). Da mesma forma, tenho certeza que muita gente não disse nada naquele dia de 2009, mas também apreciou que eu tivesse conseguido calar os celulares escrotos dos dois sujeitos.

Uma notícia no G1 dá conta que uma mulher em Teresina foi assaltada, e em seguida perseguiu de carro o assaltante, atropelou-o e tirou-lhe a vida. Há milhares de comentários lá, a maioria comemorando com “menos um”.

Todo mundo doente. Todo mundo.

A primeira coisa que tem que ficar clara é que a lei é para todos, e não é porque alguém desrespeitou a lei comigo que eu eu tenho automaticamente o direito de desrespeitar também.

Em outras palavras, o tio do busão não tinha o direito de roubar o celular do rapaz, a despeito de ele ter ou não o direito de ouvir funk sem fones no coletivo (dica: não tinha). Da mesma forma, a mulher do outro caso, em minha nada humilde opinião, tampouco tinha o direito de tirar a vida do assaltante só porque ele a assaltara. Não estou defendendo o crime dele, não é isto (porque tem umas mulas que adoram distorcer as palavras alheias), estou apenas dizendo que a mulher cometeu, sim, um crime, muito mais grave do que o do rapaz: ela saiu em perseguição contra ele quando a agressão já havia cessado, e passou com o carro por cima dele.

Durante sua reação à violência que sofreu (ela também é uma vítima, não estou dizendo o contrário) ela não pensou em nenhum momento que o rapaz provavelmente tinha pai e/ou mãe, talvez mulher e filhos; que independente de ele ser um criminoso, havia pessoas que o amavam, que tinham esperança que ele pudesse se emendar e levar uma vida de virtude; que tomada pelo ódio, que nada mais é do que a projeção enlouquecida do medo, ela decretou que o rapaz não merecia ter uma chance sequer de ir para cadeia e pagar por seus crimes como manda a lei.

Estamos tão doentes enquanto sociedade que não esquecemos que todas as pessoas são iguais, mas tão iguais que nem ao menos somos os únicos a ter problemas. Não fazemos a menor ideia de quais sejam as dificuldades ou os dramas pelos quais possam estar passando as pessoas com quem interagimos diariamente; assim, se não fôssemos todos doentes, lembraríamos de ser um pouco mais tolerantes e cordiais com o semelhante.

Nossa doença social não é de mente nem de corpo, é de alma — ou de falta dela. Não fosse isso e uma pessoa não ficaria cega a ponto de tomar o celular da mão de um estranho e em seguida defenestrá-lo (o celular, não o sujeito, mas quase não faz diferença). Afinal, como saber se o sujeito que ouve funk não é um psicopata sanguinário, só esperando pelo menor gatilho para dar vazão à sua sede por sangue? É, porque o fato de o sujeito usar um aparato sonoro sem fone de ouvido já demonstra que, no mínimo, ele não tem educação nem respeito pelas pessoas que dividem o espaço com ele. E quem não se importa com as outras pessoas não vai hesitar em feri-las.

Qual é o seu grau de doença, como parte integrante deste coletivo doente?

Crédito da imagem

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Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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