#365Posts – De Bolsonaros e Felicianos


Vocês lembram quando eu disse que não ia mais falar de nenhum pastor ou político preconceituoso? Pois eu estava mentindo novamente — e isso está começando a ficar ruim para mim.

Acontece que todo mundo sabe quem é Jair Bolsonaro, bem como está todo mundo por dentro da lambança a que levaram os interesses politiqueiros, de o PSC indicar o pastor homofóbico, misógino e racista Marco Feliciano à presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

Diz para gente, Bolsonaro, do que é que você mais gosta nessa vida.

Diz para gente, Bolsonaro, do que é que você mais gosta nessa vida.

São incontáveis as petições públicas que os militantes da modalidade sofativismo espalham todo dia pedindo a cassação de gente desse naipe, e em algumas cidades há passeatas e manifestações em paraça pública pedindo o afastamento destes políticos.

Diz a lenda que o Marco Feliciano — ou algum empregado de sua igreja, dá na mesma — conclamou os crentes de todas as religiões (inclusive os amaldiçoados católicos adoradores de imagens) a se reunirem na sede de sua igreja, em Ribeirão Preto, para discutirem sobre sua luta contra os inimigos (homossexuais, ateus, e sei lá mais quem). Haveria ido meia dúzia de pessoas para dentro da igreja, enquanto centenas do lado de fora protestavam com faixas, cartazes e palavras de ordem contra as atitudes do “líder espiritual”.

Já o Bolsonaro, no momento retratado na foto que ilustra esse post, estaria dizendo que “homofobia é queimar a rosca todo o dia”, numa clara agressão aos manifestantes contrários à indicação do Pastor Chapinha para a CDHM. Essa indicação por si só é como promover o goleiro Bruno a delegado da Mulher, ou o padre de Arapiraca para a frente de combate à pedofilia, mas isso é assunto para outro post em que eu comece confessando mentiras.

É lógico que é totalmente indecorosa a atitude do deputado carioca, não se discute isso.

Porém, esse introito todo foi porque eu gostaria de levantar uma questão muito mais triste, que as pessoas otimistas por natureza esquecem.

Esses homens públicos, todos, estão no parlamento por força do voto. Eles não foram para lá sozinhos, eles foram levados por pessoas que os escolheram como seus representantes para decidir o futuro do Brasil.

Então, se temos deputados homofóbicos e preconceituosos, se temos pastores interessados em destruir a laicidade do Estado Brasileiro, isto acontece pura e simplesmente porque esta é a vontade do povo, este é o desejo da maioria.

O caráter dos nossos políticos eleitos é apenas a demonstração do caráter médio do povo brasileiro. É uma amostragem perfeita.

Tem um destes pastores que tentam compensar a ignorância com gritos, que arrebanham milhares de doadores mensais de grana para sustentá-lo. É claro que eu nutro a mais profunda antipatia por ele e por todos os que pensam igual ao que ele prega (não sei se ele mesmo realmente pensa de acordo com o que diz). Porém, outro dia ele falou uma verdade que é inegável: o Deputado Jean Willis se elegeu com uma mixaria de 13.000 votos, ele não pode representar os interesses da maioria do povo brasileiro.

É verdade.

Felizmente, o Jean também não está na Câmara defendendo os interesses da maioria do povo brasileiro, mas sim está lutando pelos direitos das minorias. Elegeu-se com uma mixaria de votos, e trabalha praticamente sozinho em função do que acredita. É culto, inteligente, e não tem a hipocrisia dos crentes que “levam as escrituras ao pé da letra” mas ignoram praticamente todo o Levítico.

O Congresso é o retrato do Brasil. A maioria das pessoas é preconceituosa, racista, misógina, homófoba. Esta maioria esmagadora se identifica com o discurso desses “líderes”, mas muito mais importante que o discurso são as atitudes. As pessoas doam seus cartões de débito para o pastor porque elas acham válido que ele enriqueça desta forma. As pessoas desculpam o deputado que agride as minorias porque elas mesmas acham que o simples fato de serem a maioria lhes dá o direito de aniquilar o diferente.

Como coletivo, esse país está perdido. Não vai levar muito mais tempo para estarmos todos nas mãos de fundamentalistas religiosos (mas que não observam a recomendação do Levítico de não fazer a barba, e delineiam sobrancelhas e fazem chapinha no cabelo), e que o país esteja mergulhado em uma política nefasta de ódio e perseguição.

Pensando bem, já é assim, não é?

A única coisa que resta aos cidadãos de bem é criar bem os seus filhos, educá-los corretamente, ensinar à nova geração valores como altruísmo, tolerância, respeito, alteridade.

E mais importante que tudo, é necessário que se ensine à nova geração que ninguém precisa de líderes religiosos em esfera alguma, que ninguém precisa de letras mortas para ensinar o que é certo e levar um ser humano à sua plenitude. Só que para isso os pais têm que aprender primeiro a ser independentes espiritualmente, e é aí que a porca torce o rabo.

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#365Posts – De Bolsonaros e Felicianos

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

2 comentários

  • Marcus Nunes:

    Eu comentava com a minha namorada que, se deputado fosse, iria propor leis no Brasil baseadas no Levítico, só pela escrotização. Mesmo sabendo que elas nunca seriam aprovadas, acho que seria para provocar o debate de que nem tudo que está como regra na Bíblia ainda faz sentido atualmente.

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