14 Sep 2005
Violência Urbana
Nunca na vida eu tinha sentido medo de sofrer alguma violência no meio urbano, a despeito dos incontáveis relatos de pessoas conhecidas ou não que já foram assaltadas, espancadas, etc. Ontem foi o dia de perder mais essa virgindade.
Ficamos na aula de Fundamentos de Análise até o finalzinho, trabalhando duro num projeto complicado (porque não flui). Tenho a sorte de ter colegas muito bacanas, e apesar de tudo, a aula estava bem prazerosa. Na saída algumas pessoas se afastam mais rápido do prédio da faculdade porque precisam tomar ônibus, aqueles que moram perto (meu caso) ou vão de carro costumam espichar por uns minutinhos o convívio com os colegas.
Estávamos nos despedindo quando um dos colegas do grupo voltou correndo ofegante para a frente do prédio, dizendo que uns caras queriam pegá-lo. Eu, tapado, ainda perguntei: “te pegar como? Para assaltar?”.
A partir daí houve dois momentos bem distintos. Primeiro, o instinto de proteção que nos juntou ao redor do colega, para em bloco irmos ver de quem ele havia corrido. Literalmente formamos um cordão de isolamento ao redor do quase assaltado (ele, eu e mais uns seis colegas), e encontramos os dois marginais chapados que não foram páreo para as pernas do nosso amigo. Depois, um sentimento de pânico, um medo generalizado que nos paralisou. Alguns falavam besteira, do tipo “se eu pego eu aleijo”, mas de fato todo mundo ficou apreensivo demais, e o que de melhor consegui fazer foi ligar para o 190 e pedir ajuda à polícia; mas enquanto eu explicava o que estava acontecendo os meliantes resolveram se afastar.
Por fim, um colega que estava de carro levou o cara até uma outra parada de ônibus para ele não ter de correr o risco de enfrentar novamente os dois marginais, e a meu turno fui convidado por um outro colega para ir de carro com ele para casa. Não adiantou eu argumentar que chegaria em casa mais rápido a pé do que de carro, por causa do trânsito, que eu moro a uma quadra e meia da faculdade, nada. O temor dele era que algo pudesse acontecer comigo também.
Fazia algum tempo que eu não entrava em contato com sentimentos como raiva e medo, mas deu pra ter um insight interessante: quem tem raiva é sempre a vítima, ou seja, quem se sente injustiçado de alguma maneira acaba tornando-se raivoso. Ou seja, creio que a raiva seja uma legitimação da crença de que tem-se que fazer justiça com as próprias mãos.
Agora, como não pensar assim? Qual a segurança fora do prédio da faculdade que os alunos têm? Quando que foi visto um único policial nas imediações? Nunca, eu digo. Estamos entregues nas mãos dos bandidos, dos marginais, criminosos. Além disso, ainda fazem uma campanha para desarmar a população, que tem, segundo pregam subliminarmente, que ficar passivas ante essa convulsão social em que estamos mergulhados.
Espero honestamente que essa sensação péssima também passe, como tudo na vida parece passar. Porque esse é um problema insolúvel, a não ser que uma reforma social impraticável acontecesse.
A faxina teria de começar pela intolerância. Cometeu delito, trabalhos forçados; crime, apaga o meliante; crime hediondo, execução em praça pública, com requintes de tortura.
É óbvio que isso é um delírio. Seria a única coisa que a médio prazo reduziria o volume de criminosos que intimidam estudantes pés-de-chinelo que fazem faculdade no Senac, mas é impraticável. Porque a intolerência faculta erros de julgamento, e muita gente que é apenas vítima da situação acabaria pagando o mesmo preço que os verdadeiros culpados deveriam mas jamais pagarão.
Ao invés de levar o notebook para a aula hoje, acho que vou comprar um pendrive. É mais barato e aparece muito menos.
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Bah cara, que naba isso hein?
Realmente a violencia está demais em POA.
Já senti uma vez esse tipo de coisa tendo até uma arma apontada para mim e minha (hoje) esposa.
Mas pior que isso é saber que o Estado como provedor da segurança não consegue sequer nos propiciar uma perspectiva de solução.
Nós nem estudar podemos mais, seja por cerceamento financeiro ou, agora, da violência crescente.