Um dia azedo


Tem dias que a gente tem a nítida impressão que não deveria ter saído da cama. Hoje foi um destes.

Aí, quando você se dá conta disso, restam apenas duas opções: ficar o mais discreto possível, esperando o dia passar (opção sem graça) ou então usar o azedume adquirido para fazer coisas interessantes, como brigar por direitos que em dias ditos “normais” ficariam em segundo plano em nome da civilidade.

ANGER!! by Za3tOoOr!Relembremos o início da manhã. Por conta de não ter acessado a porcaria do site da rodoviária não descobri que ou os horários dos ônibus para Porto Alegre mudaram, ou eu estava completamente iludido, enganado e equivocado quanto a estes. O resultado é que apesar de meu irmão ter me levado cedo para a rodoviária (estava dormindo na casa dele) fiquei mofando mais de uma hora lá, e acabei perdendo a consulta que eu tinha no dentista.

Quando o ônibus finalmente chegou, estava vindo de um outro lugar. Como meu dia tinha de começar bem, tinha um cara sentado no meu assento. Travamos um breve diálogo.

— Qual é teu banco, cara?

— Este aqui.

— Esse aí não pode ser, porque é meu.

— É meu também.

— Impossível. Qual o número da tua poltrona?

— Quatro.

— Pois então, a tua é do corredor. A janela é três e é minha.

— Ah, gordo, que diferença faz?

— Se pra ti não faz diferença, então vai logo pra porra do teu banco. E se faz, o três é meu de direito.

Talvez porque ele tenha visto na minha barba por fazer uma ameaça, ou no fato de eu pesar quase o triplo dele, e ter quase o dobro da altura, uma ameaça, talvez por isso ele tenha resolvido se calar e sair do meu caminho.

Na tentativa de melhorar meu dia, liguei pra convidar um amigo para almoçar, e ele topou, levando mais um amigo consigo. Chegamos ao restaurante no pior horário (logo depois do meio-dia), e a fila era imensa.

Fui servir meu prato, e quando eu estava quase no fim da pista de pratos quentes percebi um casal logo à frente tentando furar a fila. Na minha frente tinha um rapaz extremamente educado e cordato, que já estava fazendo menção de permitir aos trastes que se socassem onde não era lugar deles. Só que eu não estava a fim de deixar isso acontecer, e sugeri ao rapaz: “não deixa”. Como as pessoas à frente dele também não deixaram, acabaram por cair na minha frente pra tentarem servir-se dos últimos pasteis de queijo que havia.

Eu nem queria pastel de queijo.

Até gosto de pastel de queijo, mas eles estavam muito gordurosos.

Meu prato estava cheio de frutas e salada, pastel de queijo nem combinava.

E eu queria fazer uma refeição mais light, mais frugal.

Apesar disso, servi os últimos cinco pasteis de queijo no meu prato, pois era a minha vez de me servir. Os dois filhos da puta ficaram resmungando e, naturalmente, teriam de esperar a reposição para encherem seus cochos com tal iguaria.

Saímos do restaurante e fomos a uma cafeteria para tomar um expresso. Mas eu não queria expresso, queria um capuccino. Quer dizer, passei a querer depois de ver a foto do capuccino no cardápio. Estava decidido, seria aquele café aromatizado com sei lá  o quê (vê se eu sou homem de me prender a detalhes viadescos desse naipe), leite e o principal: a espuma do leite com um trevo desenhado com café. Essa bebida dos deuses salvaria o meu dia azedo.

Salvaria. Se tivesse vindo igual à da foto.

— Minha filha — disse eu à garçonete — você se enganou: eu pedi igual ao do cardápio.

— Mas o do cardápio não é de verdade, o de verdade é esse.

— Você sabe o ator Michael Douglas? Sabia que até hoje eu tenho bronca do Robert Duvall porque o prendeu no fim daquele filme? — perguntei como se a coitada da guria fosse pegar a referência.

— …

— Eu não vou pagar, e muito menos beber esta merda. Faz favor de trazer um capuccino igual ao da foto.

— O senhor quer que eu esquente mais um pouco o seu café?

— Eu não quero esse lixo requentado, eu quero um capuccino igual ao do cardápio, é pedir demais?

Era. Querer um capuccino igual ao do cardápio era pedir demais. Meus amigos solidários também deixaram seus cafés intocados, e saíram reclamando porta afora.

Vim para a casa do meu amigo, onde estou hospedado, decidido a trabalhar com fervor até o fim do dia, canalizando essa raiva acumulada para algo benéfico para a humanidade.

E só agora me dei conta que deixei o celular com o rádio FM ligado o dia inteiro, e a bateria esgotou a ponto de o Windows Mobile dizer que se não recarregasse imediatamente haveria perda de dados.

Se vai haver ou não, não sei. Só sei que já faz dez minutos que aquela porcaria está carregando e nem acender o display não acende ainda.