Um conto de dor e preconceito


O ano era qualquer um do fim da década de 80. O cenário uma pequena cidade ao pé da serra no Rio Grande do Sul, com meros 17.000 habitantes. João estudava numa escola particular cheia de filhinhos de papai, embora ele próprio fosse filho de uma família humilde da zona rural.

Mas João não é um personagem deste conto, é um mero expectador.

Os personagens são uma turma de moleques da oitava série — quase todos da mesma sala que João — e um dos dois únicos homossexuais assumidos da cidade. O único de quem se teve notícias depois do episódio que vou contar.

Os dois rapazes homossexuais moravam no mesmo prédio que João. Não falavam com ninguém, não faziam barulho no apartamento, não apareciam no corredor. No máximo dividir o elevador com outro morador, mas ainda assim sem dirigir a palavra a ninguém.

Um dia, João chegou à escola e a balbúrdia era imensa. A turma de arruaceiros, os valentões da classe, estava em polvorosa. “Cagamo os viado a pau”, disse um deles. “Acho que um morreu”, disse o segundo. E João e mais um monte de gente ficaram horrorizados com a demonstração de ódio gratuito contra os dois diferentes.

De um dos rapazes ninguém ouviu mais falar. Do outro, codinome Dione (ou Johnny), todos os rapazes ouviram falar posteriormente.

O ano letivo já estava encerrando, e quase ninguém mais lembrava da surra que os caras haviam infligido aos dois vizinhos de João. Mas de alguma maneira alguém tinha sido portador de um recado — para os agressores — perturbador: “o Dione voltou, e disse que vai se vingar”.

Reza a lenda que o recado continha um adendo que dizia mais ou menos: “foi um erro não terem me matado”.

De repente, uma série de eventos macabros começou a tomar conta da cidade. Cada um dos agressores do Dione foram aparecendo espancados em madrugadas aleatórias, na esquina do hospital. Diziam que o Dione estava se vingando, e em todos deixando marcas permanentes. De um, ele teria arrancado um olho. Outro teria deixado surdo de um ouvido. De outro, esmagado os ossos de um dos braços. A proximidade do hospital era para aumentar as chances de o desgraçado ser encontrado e tratado a tempo de não morrer.

Fim da ficção, começo da reflexão

Lamentavelmente, é impossível não ter ímpetos de sair resolvendo na porrada os problemas do mundo. Recentemente um imbecil do Twitter (cujo perfil não vou citar, nem indicarei o link para o conteúdo dele, porque isso seria aplaudir sua atitude) gravou um vídeo terrivelmente homofóbico, misógino e racista. Talvez houvesse mais conteúdo preconceituoso na “produção” do imbecil, mas eu não tive estômago para ouvir tanta besteira por mais tempo.

Eu, que sou um sujeito ponderado, racional, defensor do diálogo e dos direitos, bem como na igualdade irrestrita entre todas as pessoas, tenho esses ímpetos. Imagino os meninos que foram agredidos na Paulista, ou os afrodescendentes que pela cor da sua pele são rotulados de bandidos devido a simplesmente existirem.

Tem dois filmes que eu vi e me identifiquei muito com o personagem principal: Um Dia de Fúria (do qual já tive uma versão, há muito tempo, aqui) e V de Vingança. E é para isso que a arte existe: para que pela realização ou apreciação desta façamos a catarse dos sentimentos e emoções que se mal direcionados poderiam causar problemas à vida em sociedade. Bem, não é a definição formal, mas para ler coisas que estão na Wikipedia você não precisaria ler o meu blog, certo?

Fico pensando em quanto será necessário investir em educação para conscientizar gente como esse bucéfalo supracitado de que não importa a orientação ou escolha afetiva ou sexual ou que nome se dê a isso, todo mundo tem os direitos iguais. Se héteros têm o direito de se beijar em público, de andar de mãos dadas no parque num cenário de comercial de margarina, os gays também têm. Cabe a cada pai ensinar a seus filhos tolerância e respeito. Se não tiver culhão para educar nessas bases, então, lamento, mas o sujeito não está apto à paternidade.

Mas eu sei que é um absurdo eu falar disso. É uma demagogia. Eu sou um otário. A população mundial é composta de gente violentada e abandonada por seus genitores, que por repetição acaba produzindo novas gerações de violadores e abandonadores. Poucos são os que conseguem quebrar essa maldição, educando suas crias de maneira realmente diferente daquela em que eles próprios cresceram.

E o principal motivo de haver tão poucos quebrando esses grilhões é simples: as pessoas se recusam a pensar. Preferem agir exclusivamente pelo condicionamento (se fosse pelo instinto estariam no lucro), porque é mais fácil.

O Ser Humano requer mais do que água, comida e sexo para viver e ser feliz. Precisa de educação, segurança, desenvolvimento intelectual e ética. Animais, principalmente os domesticados — condicionados, portanto — é que se contentam com uma caixa de areia, um prato de ração, uma tigela de água e um ninho.

O Ser Humano precisa realizar seu potencial tanto no corpo quanto no espírito, precisa produzir e vivenciar cultura, esporte e lazer. Mas acima de tudo o Ser Humano precisa compreender que não há diferenças. Quando alguém tem vontade de sair matando os animais que fazem videozinho besta incitando ódio e preconceito, na verdade está é querendo suicidar-se pela morte do outro, pois não há separação, não há diferenciação.

Enquanto houver um único ser que não tenha luz suficiente para compreender que respeito ao outro é respeito a si mesmo, que solidariedade com o semelhante é cuidado consigo mesmo, disparates como os da ficção que abre este post serão coisa comum, que continuarão minando a dignidade humana e criando medo e mais medo (não sei — como diria o Cortella ao falar de Deus — mas há quem diga que civilizações adiantadíssimas pereceram no passado por causa do medo).

Não perco as esperanças de que um dia  aqueles que escolheram agir como lixo acordem e vejam que estão vendendo sua dignidade, sua integridade como seres humanos, por muito pouco. Não tem dinheiro que pague isso, imagine meia dúzia de seguidores tão acéfalos quanto o próprio! Ou o “privilégio” de tirar uma foto bebendo com alguém famoso. Nem mesmo muito dinheiro — que é o que daria uma ilusão de poder compatível com os parâmetros do planeta — vale perder a dignidade, imagine migalhas afetivas!

Eu, particularmente, estou muito bem encaminhado. Tenho muito mais do que convicção, tenho certeza disso. Mas enquanto houver um único no mundo desrespeitando o semelhante, eu próprio serei violado e violador nessa equação, porque só existe a unicidade. E é por querer um mundo melhor para mim que eu me esforço a cada dia para tornar o ambiente ao meu redor ao menos um pouquinho melhor. Às vezes perco a mão, fico irritado, mas o momento seguinte é de levantar, sacodir a poeira e dar a volta por cima. Por absoluto egoísmo, meu maior sonho é que a Humanidade inteira se ilumine, e assim serei eu também verdadeiramente iluminado.