“Tu é mais tu, saca”

Sem categoria 17 outubro 2007 | 12 Comments

Certa vez eu comentava com uma amiga acerca de nossas passagens pela umbanda, eu mais na qualidade de curioso, leitor de Pierre Vergé, ela de iniciada, por ter ficado não sei mais quantos dias deitada com um monte de ervas na cabeça (em contrapartida à outra forma de iniciação, que inclui sacrifícios animais). Quando ela me contou que havia passado por esse processo eu perguntei como, então, ela circulava tão livre por aí, despreocupada com a agenda de “obrigações” que a religião implica. Sua resposta foi uma das frases mais impregnadas de gauchês que eu já ouvi, na mesma proporção que foi impregnada de sabedoria:

— Ah, Janio… Tu é mais tu, saca…

Minha amiga não imagina o quanto eu lembro todo dia dessa frase, e, por algum motivo que ainda não consigo imaginar, um artigo antigo do Blogue (Técnicas de Lavagem Cerebral) tem me feito pensar nisso diariamente ao receber mais visitas e comentários do que de costume.

Penso na frase de minha amiga porque os contatos mais recentes sobre esse assunto são de pessoas que têm na família alguém que foi vítima de lavagem cerebral e gostariam de reverter o processo. Em uma única frase, devo dizer que — até onde sei — o processo é irreversível; no momento que uma programação entra na mente, ela ocupa o lugar daquela que foi apagada. Para que a antiga programação seja resgatável, de alguma maneira, ela não pode ter sido substituída pela nova, para que possa ser acessada.

Mas aí é que a porca torce o rabo.

Ninguém sofre uma lavagem cerebral se não aceitar antecipadamente ser exposto, submetido a este processo. “Tu é mais tu, saca…”

Em outras palavras, por mais que existam técnicas de persuasão, entonação vocal, efeitos luminosos, e tudo o mais, essas coisas só funcionam com quem vai aos lugares onde essas técnicas são empregadas. Ninguém obriga um transeunte a entrar numa igreja de crentes para ser convertido (exceto para o caso dos pais crentes que obrigam seus rebentos a freqüentar seus cultos, em idade que ainda não têm senso crítico o suficiente nem autonomia para saber o que é ou deixa de ser bom para si).

Se alguém da minha família — que não tem crentes, pelo menos não ligados a mim diretamente — resolver entrar para uma igreja dessas e ficar á mercê da rapacidade dos pastores, aceitando passar por uma lavagem cerebral, e eu decidir que vou empregar técnicas de lavagem cerebral para “salvar” essa pessoa, estarei sendo tão culpado ou culpável quanto aquele que eu condeno.

Se houvesse algo que pudesse ser feito à revelia da vontade da pessoa, para reverter o processo de lavagem cerebral, e eu fizesse isso, eu estaria exercendo um poder maior que o poder que a própria pessoa tem sobre si.

“Tu é mais tu, saca.”

Se você tem algum ente querido numa situação dessas, alienando-se por influência de algum processo de reprogramação subliminar, minha recomendação é que ao invés de tentar combater fogo com fogo, tentando fazer um processo nos mesmos moldes do empregado pelo “adversário”, descubra quais foram os motivos que levaram seu ente querido a procurar por livre e espontânea vontade um lugar em que fazem lavagem cerebral; se ele permanece lá, é porque de alguma forma sente-se bem, sente-se recompensado, alguma necessidade sua foi atendida. Então, descubra que necessidades são essas, veja se tem algo que poderia estar fazendo melhor, e resgate seu parente ou amigo pelo amor e pela generosidade. E se descobrir que não tem como combater ou reverter o processo, ame seu parente assim mesmo, aceite-o do jeito que ele é, e não torne as coisas mais difíceis do que já são.

“Tu é mais tu, saca.”

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  • http://hildersantos.com Hilder Santos

    Jânio,

    Especialmente hoje, me vi impelido a deixa um comentário aqui, sobre o teu artigo.

    Eu já passei por algo bem parecido na minha vida, cara. Técnicas de lavagem cerebral que funcionaram comigo – me fazendo ficar cego para tudo o mais.

    Você sabe que moro na Bahia, caldeirão de culturas. Acontece que, há alguns anos atrás, me envolvi não só com a Umbanda, mas com diversas religiões, incluindo o Candomblé. Precisava de uma resposta concisa para os fenômenos que me rodeavam, e para as perguntas racionais que me enchiam o pensamento.

    Então… Cheguei na iminência de ser "iniciado", assim como a tua amiga. Apesar de a minha família ser católica praticante, por mais que eles dissessem algo que fosse contra o que me fizeram acreditar, eu não enxergava… Estava totalmente absorto por esta "programação".

    Sorte que, na véspera da minha confirmação, pude enxergar um pouco além e, como se acordando de um sonho, saí de lá, deixando tudo para trás, e dei a volta por cima. Sim, eu fui mais eu.

    Acredito que foi devido às orações da minha família. Como a lei que rege o mundo é a da ação e reação, uma hora ou outra toda aquela energia de pensamento deveria dar resultado de alguma forma, e "quebrar a casca". A própria psicologia explica isso de forma completamente racional.

    Após me desligar das religiões, tornei-me cético, e passei anos neste ceticismo (que não passavam de defesa contra tudo o que passei, sofri e me decepcionei…)

    Hoje, tenho feito novas – e valorosas – descobertas, através da leitura de alguns livros espíritas; felizmente, são explicados fenômenos considerados "mágicos", pela luz da razão e da ciência, prerrogativas estas que a minha mente já se acostumou, devido ao meu tempo de ceticismo.

    Resumindo: em horas como esta, de desespero por "lavagens cerebrais", o melhor mesmo não é jogar fogo contra fogo, como você mesmo falou. Tudo isso pode ocasionar numa dupla frustração por parte do "manipulado".

    Nosso pensamento tem uma força muito grande… Tanta força, que acabamos por nos tornar aquilo que acreditamos. Então, que tal utilizar esta força magnética para o bem do próximo, neste caso, o do manipulado? – já sem aspas. E não é nada demais! Nosso pensamento gera energia, que gera ação, que gera reação. Se não fosse assim, Lavoisier já estaria esquecido. É uma coisa tão simples, mas que muita gente nem sequer sabe como funciona!

    Até os céticos oram. Desejar algo é orar. Disso ninguém pode fugir.

    Mas quando você junta a esta oração a força do Universo, meu velho…

    Ah, aí, não tem escapatória. Eu que o diga!

    Grande abraço, meu brother, e desculpa pelo post-comentário! ;)

  • Cleiton

    Ola…a respeito deste tema, não consigo encontrar meios de resgatar uma pessoa que foi convertida religiosamente apenas através de estimulações afetivas, tentando resgatar os motivos que a levaram à igreja. Além do mais, ela não estava consciente que sofreria um processo de lavagem cerebral, e sim que aqueles "assassinos" resolveriam milagrosamente todos os problemas de quem estivesse presente naquele dia. Hj a pessoa que me refiro não aceita qualquer tipo de ajuda e ainda se revolta com quem tenta mostrá-la a realidade do que aconteceu.

    Suplico….deve haver uma maneira mais eficaz de reverter a situação.

    Aguardo contato.

    Cleiton.

  • Hugo Fittipaldi

    Taí, gostei!

  • http://sarmento.org/janio Janio Sarmento

    Cleiton.

    Aguarda contato de quem? Dos ETs que vão abduzir a pessoa a que você se refere, para tirá-la do convívio da referida igreja?

    A vontade é soberana, meu amigo, e se essa pessoa não quiser sair de onde está, ela não vai sair.

    Se encontrar evidências de que estou errado, por favor apresente-as a mim. Será com o máximo prazer que escreverei uma retratação.

  • Tatiana

    Oi Jânio…

    Tenho que concordar c/ o q vc diz sobre a vontade das pessoas e tal…, mas, ao mesmo tempo não posso deixar de acreditar q isso tenha volta… poxa, essa pessoa não nasceu assim (falando a grosso modo!), então, assim como isso entrou, tem q sair! heheheheh

    Essa amiga se tornou alguém irreconhecível, agressiva c/ quem diverge dela nos assuntos de religião, ela está cega, uma pregadora q antes só ouvia músicas jovens (CPM 22, Detonautas, Papas da Língua, Merjorie Estiano, Nando Reis, Legião Urbana, Engenheiros, e por aí afora) e hoje só houve músicas gospel, veste-se quase como uma senhora toda recatada, tinha sonhos e planos d faculdade e cursos e hoje… nada!

    Será q uma pessoa fragilizada por problemas, angústias, dúvidas, incertezas, não se encontre mais suscetível a esse tipo de programação q outras em sã consciência, vamos assim dizer??

    Será q se apelarmos ao mesmo lado do cérebro da emoção, não teremos algum sucesso, um avanço, sei lá…

    E sobre a parte de encontrar evidências q vc diz no comentário dirigido ao Cleiton, dê uma olhada nesta página http://pessoas.hsw.uol.com.br/seitas5.htm e me diga o q acha…

    Abraços!

  • http://blog.cronicanet.com.br Fernando MS – Pulga

    hmmm… muitas vezes a gente se esquece que as outras pessoas têm vontade própria… por mais idiota que seja a situação – se o indivíduo em questão está fazendo papel de "otário" na mão de um "pilantra" mas, se sente bem nessa situação – esqueça… deixe… ele está feliz assim…

    Mudando um pouco de assunto:

    Jânio – ontem fui em uma palestra, aqui em Florianópolis, do Ricardo Noblat (você deve saber quem ele é, né?)…

    Nossa! A palestra foi boa demais!

    O tema era "Jornalismo on line – o fenômeno dos blogs na visão de Ricardo Noblat"… bem… no meio do bate-papo, bem discretamente, comentou que lê o teu blog.

    Achei bem bacana, vindo o comentário de quem veio.

    Com relação a palestra, fiz um post… quando tiveres um tempinho livre dá uma olhadinha lá… http://blog.cronicanet.com.br/palestra-com-ricard
    Grande abraço!

    …[:)]…

  • http://sarmento.org/janio Janio Sarmento

    Tatiana.

    A página em questão fala de duas possíveis técnicas para retirar uma pessoa de uma seita, mas ambas necessitam que a pessoa queira sair de onde está. Até mesmo aquela baboseira de seqüestro: você pode ter controle sobre o corpo da pessoa, jamais sobre sua mente (ou alma, como preferir). Ela pode submeter-se ao flagelo físico, mas terá a certeza de que isso apenas reforçará a sua fé.

    Aliás, uma outra reflexão que me ocorre agora: se algum ente querido meu resolver entrar para algo que eu não aprovo, antes de mais nada eu vou querer saber se ele está feliz estando onde está; se estiver feliz, eu não vou querer que ele saia de lá, pois seria pura e simplesmente egoísmo querer "de volta" a pessoa de antes.

    Se eu não puder aceitar que meu amigo ou parente tenha uma orientação religiosa diferente da minha, então eu não sei nada sobe o amor, entende?

  • http://sarmento.org/janio Janio Sarmento

    Fernando.

    Realmente, a gente nunca sabe quem lê o blog da gente… Fico feliz que o Noblat leia meu blog, e espero que o comentário que ele tenha feito tenha sido positivo. ;)

    Obrigado pelo toque!

  • http://blog.cronicanet.com.br Fernando MS – Pulga

    ow sim… foi bem bacana a maneira pela qual mencionou o teu blog…

    O assunto que estava sendo tratado no momento era a pessoalidade, o tipo de linguajar, a interatividade do leitor para com quem escreve o blog… etc…

    Foi muito rápido… porém, me chamou muito a atenção pois eu estava ligadão na palestra e estava atento – principalmente – a tudo que fosse relacionado a blogosfera e aos blogs que eu leio com frequência.

    :)

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  • Giuliano Galvão

    Rapaz, o que reverte lavagem cerebral de seitas religiosas é… cachaça! Vinho, cerveja, pinga, poca-olho, mata-sogra, milome… alcool, mano. Aconteceu comigo, deixei de ser Mormon e hoje estou feliz! David dançou depois de tomar um porre de vinho. Jesus transformou água em vinho… O ministério da igreja adverte: beba, mas com moderação.