Dando seqüência ao assunto do post anterior (preciso urgentemente arranjar uma alternativa em Português para post), quando falei que A Crueldade Humana não tem Limites, gostaria de escrever uns dois ou três parágrafos sobre algumas coisas em que acredito, no que diz respeito a paternidade, educação de petizes e respeito.
Como eu disse, vi no fide do Velho a notícia intitulada Choque de realidade, mas o que eu não tinha feito era entrar na página para ver que os visitantes podem interagir e deixar seus comentários acerca de cada notícia publicada. E justamente um desses comentários me chamou bastante a atenção.
Um determinado leitor diz o seguinte.
É isso que faz um menino virar homem. Como pode ver ele não é nenhum Europeu. Vive e sempre viverá em péssimas condições.
Na minha infância eu nunca tive um console como meus amiguinhos, porém hoje, dou graças a Deus por isso.
Já aqui, a minha cliente, leitora e amiga Lu Monte disse o seguinte em seu comentário.
Que tipo de pais podem achar que isso é divertido?! Caramba, não dar o que a criança quer é uma coisa (eu não tive tudo que quis, muitos não tiveram e cresceram felizes assim mesmo), mas pregar uma peça dessas é de uma frieza tão grande que até dói.
Sem entrar no mérito das infâncias de cada um, e sequer me influenciando pelo fato de que a Lu ser minha amiga, fica evidente que ela tem uma visão muito mais clara das coisas, ou que o autor do outro comentário é apenas um garoto ainda imaturo, que não entendeu que seu umbiguinho não é o centro do Universo.
Talvez pouca gente saiba (valeria até ressucitar o meme que consistia, no meu turno, em eu contar Cinco Coisas Sobre Mim que talvez os leitores não soubessem), mas eu fui ensinado a trabalhar desde muito cedo, e não estou falando da ajuda nas tarefas domésticas que as mães impõem a seus mimados pimpolhos. Aos dez anos de idade eu tomava conta de meu irmão enquanto nossos pais trabalhavam fora, e até assava pão (cuja massa ficava preparada e “descansando” de um dia para o outro), cozinhava e limpava. Aos doze minha timidez levou um dos primeiros grandes choques, quando meu pai passou e me pôr para trabalhar no verão, durante as férias, vendendo laranjas e bergamotas na beira da estrada; todos os meus amigos passavam as férias inteiras andando de bicicleta, jogando bola, ficavam semanas na praia, e eu passava os melhores meses do ano trabalhando. Aos quatorze anos finalmente saí de casa, e desde então eu vivo por mim próprio, enfrentando as minhas dificuldades sozinho (em termos, nunca estou sozinho realmente).
Ou seja, na minha infância eu nunca tive um console de jogos. Mas meus pais nunca cometeram uma atrocidade dessas, de criar uma falsa expectativa para depois rir da minha cara. Quando aos doze anos fui para a estrada vender laranja pela primeira vez, achando que aquilo seria a pior coisa que poderia estar me acontecendo, meus pais tiveram uma conversa comigo explicando a situação financeira da família, dizendo por que eu não podia ter um televisor no quarto, ou um Atari, ou uma bicicleta que não tivesse pelo menos o dobro da minha idade; eles me fizeram entender, do jeito que puderam, mas com muito amor, e com o coração mais apertado que o meu próprio, que era hora de eu aprender a trabalhar para poder trilhar o caminho da independência.
Isso, entre outras coisas, fez de mim um homem. Meu pai, com toda sua “ignorância” (no sentido de “falta de estudo”) é um cara que sabe criar filho, sem dúvida alguma; se um dia eu tiver um filho, tenho certeza de que vou me esforçar para ser para ele um pai exatamente igual ao que eu tive, pois foi o melhor de todos. Sorte do meu filho se eu puder ser um pai como foi o seu avô.
Mas estou tergiversando.
Não há nada que justifique adultos humilharem uma criança diante de uma câmera, mesmo que no minuto seguinte, que não aparece nas gravações e por isso eu acredito que ele não tenha existido, eles tenham dado o Xbox que o guri foi instado a esperar, a esperança e o sonho foram plantados em seu coraçãozinho para em seguida serem impiedosamente estraçalhados. Por mais que o moleque seja “uma peste”, nada o faz merecer passar por uma indignidade dessas.



Jango!
Notas sobre esse vídeo, vi também no Sedentário antes de sua postagem sobre e agora, saber que a Lu também indignou-se. Eu, não o vi, vocês já disseram tudo.
E, se a Lu que já me disse ser meio “durona” indignou-se, eu que sou manteiga, nem quero ver.
É o fim da picada.
Jânio,
Seu pai é (ou foi, e perdoe-me se cometo aqui uma indelicadeza) um homem de VALOR. Cara, como eu bato nessa tecla lá no blog. VALORES, é o que falta hoje em dia. O mínimo de valores pra ensinar um moleque a ser alguém na vida. Um pai, nem na época dos seus 14 anos, nem hoje, precisa ter dinheiro algum pra educar um filho.
Ele só precisa ensinar valores como honestidade, ética, gratidão e tudo aquilo que muita gente acha piegas demais pra levar em consideração. O dinheiro ajuda – e muito. Mas valores, valores, valores, é o que interessa.
Jânio, esse post elevou minha admiração por você ao cubo. Emocionado.
Abraço!
Pois é Jânio, o autor desta primeira pérola de comentário realmente deve ser ou um piá de nada ou um riquinho arrogante. Quer dizer que só por quê não tem condições neste momento nunca terá chance? E outra, como tu colocaste, uma coisa é não dar determinado presente, outra é humilhar.
Eu não consigo dar todos os presentes pro meu filho, até por quê ele já sabe que primeiro tem que merecer, e não falo em trabalhar ou coisa assim, digo em ser carinhoso, obediente, essas coisas. Segundo desde cedo sempre fomos francos dizendo que o dinheiro que se ganha não é só pra presentes, mas também pra comida, casa, estudo…
Foi assim que fui criado e agradeço sempre a minha mãe por isso!
Aquele vídeo é quase tão ruim quanto o da cobra naja desdentada atacando um bebê de um ano na frente de toda sua família que assistia ao espetáculo.
Sérgio.
Fazes bem em te poupares desse desgosto.
Becher, felizmente meu pai é um homem de valor, está bem saudável, trabalhando feito um mouro.
Fico feliz que a gente pense de maneira parecida, ainda há esperança para o mundo.
Traichel.
É isso, a maneira como eu vejo tu tratares o teu filho é o que vai fazer dele um adulto melhor, porque desde cedo tu ensinas respeito a ele: respeito às pessoas, à ordem, às prioridades.
Como disse o Becher, questão de valores.
Bender.
O vídeo da naja como o bebê é muito terrível também, e pior ainda porque a cobra está com a boca costurada, pelo que eu me lembre, ao invés de — o que também seria horrível — ter tido os dentes arrancados.
São manifestações diferentes da estupidez, e é difícil dizer qual família foi mais cruel.
Mas, pensando melhor, a mais estúpida, com certeza, foi a do bebezinho com a naja. Pelo menos o guri do Xbox não ficou exposto a risco de vida, e vai crescer para poder odiar os pais e fazer terapia.
Pois é, o Sérgio está certo quando diz que sou durona, mas determinadas coisas são demais. A família deveria ser o porto seguro, o reduto mais acolhedor, pleno de carinho, amor, afeto. Quem acha válido o comportamento dessa família deveria ser esterilizado para não perpetuar a própria frieza.
Aliás, ser pai/mãe deveria ser um privilégio, não um ato ao alcance de todos.
Eu seria uma pessoa mais feliz se não tivesse visto este filme, mas enfim, é realidade. Para nós que somos pais a dor é a dobrar quando se vê coisas assim.
Quanto ao post, magnífico, de vez em quando o Jânio consegue colocar o dedo na ferida e provocar sentimentos.
[]´s JV
Parece que todos, ou alguns, tiveram que ir a luta bem cedo. Também entreguei jornais, vendi verduras empurrando um carrinho de mão morro acima e abaixo, vendi pão de casa em casa e nada disso me deixou com sequelas de uma infância infeliz, pelo contrário. Naquela época não se tinha acesso aos brinquedos e se os fabricava com restos disso ou daquilo. Os pais deixavam bem claro o estado econômico/financeiro em que nos encontrávamos e não nos iludiam com falsas promessas, ou usando de subterfúgios, que não podiam cumprir.
Tem pais e pais. Ainda bem que o meu não foi nem um pouco parecido com este aí, Jânio.