O título deste é “emprestado” do encerramento de uma série de nove posts de autoria do Marcus (Grande Abóbora). Desde que ele escreveu o primeiro que eu venho ensaiando escrever algumas linhas acerca deste assunto, não como “resposta” ao Marcus mas sim como exercício de expressar livre e abertamente minhas próprias crenças e certezas.

North Conway, New Hampshire
North Conway, New Hampshire
Imagem via Wikipedia

De fato, não tem coisa que me torre mais o saco do que crentes ignorantes que acham que qualquer um que não pense com a cabeça de seu pastor vai para o “inferno” (como se este plano de existência, mergulhado no medo e suas derivações, não pudesse ser ele o próprio inferno), ou ateus imbecis que querem reduzir toda a existência a silogismos simplistas, tão simplistas quanto sua própria prepotência. Ambos os casos são muito bem ilustrados pelo Marcus no artigo Resposta a uma crente.

Aliás, peguemos o exemplo dos dois moços do vídeo que ilustra o artigo do Marcus. Eles tiram o maior sarro do cara que tolamente queria convencê-los de que Deus existe ao perguntar se ele acredita em unicórnios; ante a negativa perguntam por quê, e o sujeito diz que é porque unicórnios são fruto da imaginação das pessoas, invenções; e então os dois se regozijam e dizem “é isso aí”.

Acontece que a própria evolução é algo tão complexo que a mente humana é incapaz de compreendê-la. Aliás, a própria mente é incapaz de compreender-se, dada sua complexidade. Precisaríamos de um hardware bem mais complexo do que o que temos para compreender o hardware atual, para usar de uma metáfora, e este novo hardware requereria um outro ainda mais avançado para decifrá-lo, e assim sucessivamente.

Isso posto, fica fácil de entender que não é pela mente que compreenderemos ou entenderemos Deus. Só pode ser, naturalmente, pelo Coração.

Não estou dissociando Coração e mente, isso seria negar a própria essência humana, que como tudo que emana de Deus (ou seja, absolutamente tudo) eu só posso respeitar e admirar, mesmo que às vezes eu esqueça disso — como quando eu critico as vacas de presépio ou os ateus prepotentes. Estou dizendo, repito, é que a mente sozinha é insuficiente para compreender algo que é simplesmente maior e mais complexo do que a complexidade da mente humana possa conceber!

Eu sei que deveria falar mais sobre minhas crenças no meu blog pessoal, e investigando um pouco o que me leva a “sonegar” a meus leitores isso que faz parte de mim, chego ao asco de ser confundido com um “crente”.

Não que eu não seja crente. Todo mundo que crê, é crente.

Refiro-me, isso sim, aos neo-evangélicos, aqueles que dizem pautar suas vidas pelos ensinamentos do Cristo, mas vivem — ou melhor, discursam — segundo preceitos do Velho Testamento. Há dois anos já disse nos comentários de um dos posts que mais sucesso fazem aqui, respondendo a um destes crentes xaropes, o seguinte (com uma pequena correção que no outro texto me custou um comentário extra).

Falando em Bíblia, uma das minhas passagens favoritas é Êxodo 21,7-8 por exemplo, onde são dadas orientações sobre a maneira de vender a própria filha como escrava. Quanto está valendo a sua, a propósito?

E em Levítico 25,44, explica-se que os escravos devem ser comprados nas nações vizinhas. Quanto será que está a cotação de uma escravinha tipo a sua filha no Paraguai?

Mas a que eu mais gosto é Êxodo 35,2, que diz que o sábado é para descansar e quem trabalhar neste dia DEVE SER MORTO. Já mandei vir lá da terra onde vendem escravas baratas (o Paraguai, é claro) um AR-15 e uma Beretta. No primeiro sábado depois que as armas chegarem quero fazer um limpa nessa cidade, a começar pelos feirantes que desrespeitam essa lei divina, e ficam vendendo legumes e verduras no sábado de descanso e adoração!

Não dá, sério mesmo, sequer pra considerar a opinião de gente que acha que qualquer um que não faça gritaria no domingo de manhã nem entregue 10% (ou mais) do salário para o pastor vai passar a eternidade nadando num lago de fogo. Pensar que Deus pudesse ter um inimigo tão poderoso a ponto de este pôr em risco a Soberania Divina sobre tudo o que há, é reduzir as coisas ainda mais do que ao reducionismo dos ateus, que pelo menos se recusam a sentir, mas não a pensar. E basta pensar um pouco para deduzir que se Deus criou seja lá o que for, é porque este seja lá o que for é útil à Sua Criação e aos Seus propósitos.

Agora, voltando ao título que rou… digo, ao título que emprestei do Marcus: religião pra quê?

Religião, do latim relligare, ou religação, reconexão. É mais ou menos como se a ligação das pessoas com a Divindade tivesse caído, e as pessoas tivessem inventado algo para restituir esta ligação. Só que Deus é onisciente e onipresente (o que o Marcus contesta com o argumento de que onisciência não combina com livre arbítrio). E por isto mesmo Ele não só está como Ele É em todos os espaços e em todos os  tempos ao mesmo tempo.

Ora, só precisa de religião (religação) quem se desligou. Mas é impossível desligar-se de Deus, mesmo que não se acredite nele, mesmo que se O compare a um unicórnio, ou qualquer outra tolice destas. E por esta mesma razão, religião é uma coisa inútil, totalmente inútil.

Ou talvez não totalmente: algumas das infinitas partes do Todo preferem ser massa de manobra. E se elas assim desejam, que se cumpra a sua vontade.

Por fim, devo dizer que em parte o Marcus tem minha concordância: mais absurdo do que não acreditar em Deus é acreditar em um Deus vingativo, irado, birrento feito criança, que sendo Ele o Criador de tudo o que há e que é ainda assim se incomodaria porque uma parte de Si resolveu seguir seu livre arbítrio — concedido por Ele, naturalmente — e fez algo que o pastor (ou o padre) não gostam — como pensar ou manter relações sexuais por prazer. Esta deidade a que se referem estes fanáticos religiosos não passa da projeção dos medos, taras e delírios dessas mentes fracas, pois quem vive no Amor do Pai não tem medo de nada, nem teme represália ou punição alguma.

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