O Rio Grande de Luto
Quem já viajou por outros lugares sabe que apesar de o gaúcho ser associado a separatismo, e os manés de São Paulo adorarem fazer piadinhas sugerindo que somos todos viados (estou me referindo aos manés, se você é paulistano e não é mané, está na cara que não é sobre você que estou falando; e se é mané mas não é paulistano, é com você, sim), o povo gaúcho é dos mais hospitaleiros, emocionais e generosos do País. Mas não é só isso: o gaúcho é um povo muito unido e solidário, seja nas horas boas, seja nas tragédias.
Nessas últimas 48h o Estado passou por uma comoção imensa. Os passageiros do vôo 3054 eram em sua maioria gaúchos, se não na naturalidade, mas por trabalharem aqui, deixando parte do fruto de seu suor no Rio Grande do Sul, terra que os acolheu. E é na dor de quem perde muitos entes queridos de uma só vez que a gauchada se uniu, em solidariedade às famílias que sofreram perdas nessa tragédia.
Nesse trágico vôo havia 19 pessoas indiretamente ligadas a mim. A primeira impressão de que não havia conhecidos era falsa. Não falo de personalidades conhecidas, como o ex-presidente do Internacional, ou o deputado. Falo do pai de um amigo. Falo de executivos de empresas que foram ou são minhas clientes. Falo do noivo de uma antiga colega de aula.
Soube de um caso de uma família que perdeu o pai, um homem de meia idade, com uma grande projeção no meio em que atuava. Sua filha havia tido uma discussão — daquelas normais entre filhas adolescentes e pais conservadores — e ele fora para o aeroporto “brigado” com a guria. Ela está ardendo em culpa porque ao invés de “eu te amo” as últimas palavras para o pai foram de agressão. Sofre a guria, mas tenho certeza que sofre o pai que não tem como dizer: “filha, amor de pai é incondicional, e por isso eu nem tenho nada de que te perdoar”.
Essas pessoas todas que passaram tão tragicamente para o outro lado estão fazendo a maior falta. São filhos que não terão a alegria de crescer junto a seus pais. São filhos que nem chegaram a nascer, como aconteceu com aquela jovem mulher que estava grávida de três meses. São mães que foram deixadas com os filhos nos braços, tristemente privadas do carinho e da força de seus maridos. São maridos, noivos, namorados, cachos, que não terão mais a alegria de ter uma crisezinha besta de ciúmes na volta da amada. São pais e mães que passam pela situação que imagino seja a mais cruel possível para um ser humano: nenhum pai deveria viver mais que seus filhos.
Uma amiga fez um cálculo simples: supondo que tenham sido 200 vítimas no acidente, e que cada uma tenha 10 entes queridos, só aí já são 2.000 almas vibrando em uníssono na dor, na angústia, na raiva, na tristeza, na desolação. É impossível não ser afetado por essa energia. É impossível não ser solidário a essas perdas.
Caso algum imbecil pense em vir aqui dizer que ninguém está chorando a perda de não sei quantas vidas no atentado de não sei onde, que ninguém está lamentando as milhares de mortes que ocorrem por subnutrição no mundo inteiro todos os dias, de antemão eu já respondo: vá para a puhta que o pariu, comparar as mortes que acontecem todos os dias em regiões em guerra, ou os problemas crônicos de uma sociedade de miseráveis a um acidente trágico ocorrido na segunda maior cidade da América Latina, é no mínimo uma falácia.
Que se respeite a dor de meu povo.