O Rio Grande de Luto

Sem categoria 19 julho 2007 | 4 Comments

Quem já viajou por outros lugares sabe que apesar de o gaúcho ser associado a separatismo, e os manés de São Paulo adorarem fazer piadinhas sugerindo que somos todos viados (estou me referindo aos manés, se você é paulistano e não é mané, está na cara que não é sobre você que estou falando; e se é mané mas não é paulistano, é com você, sim), o povo gaúcho é dos mais hospitaleiros, emocionais e generosos do País. Mas não é só isso: o gaúcho é um povo muito unido e solidário, seja nas horas boas, seja nas tragédias.

Nessas últimas 48h o Estado passou por uma comoção imensa. Os passageiros do vôo 3054 eram em sua maioria gaúchos, se não na naturalidade, mas por trabalharem aqui, deixando parte do fruto de seu suor no Rio Grande do Sul, terra que os acolheu. E é na dor de quem perde muitos entes queridos de uma só vez que a gauchada se uniu, em solidariedade às famílias que sofreram perdas nessa tragédia.

Nesse trágico vôo havia 19 pessoas indiretamente ligadas a mim. A primeira impressão de que não havia conhecidos era falsa. Não falo de personalidades conhecidas, como o ex-presidente do Internacional, ou o deputado. Falo do pai de um amigo. Falo de executivos de empresas que foram ou são minhas clientes. Falo do noivo de uma antiga colega de aula.

Soube de um caso de uma família que perdeu o pai, um homem de meia idade, com uma grande projeção no meio em que atuava. Sua filha havia tido uma discussão — daquelas normais entre filhas adolescentes e pais conservadores — e ele fora para o aeroporto “brigado” com a guria. Ela está ardendo em culpa porque ao invés de “eu te amo” as últimas palavras para o pai foram de agressão. Sofre a guria, mas tenho certeza que sofre o pai que não tem como dizer: “filha, amor de pai é incondicional, e por isso eu nem tenho nada de que te perdoar”.

Essas pessoas todas que passaram tão tragicamente para o outro lado estão fazendo a maior falta. São filhos que não terão a alegria de crescer junto a seus pais. São filhos que nem chegaram a nascer, como aconteceu com aquela jovem mulher que estava grávida de três meses. São mães que foram deixadas com os filhos nos braços, tristemente privadas do carinho e da força de seus maridos. São maridos, noivos, namorados, cachos, que não terão mais a alegria de ter uma crisezinha besta de ciúmes na volta da amada.  São pais e mães que passam pela situação que imagino seja a mais cruel possível para um ser humano: nenhum pai deveria viver mais que seus filhos.

Uma amiga fez um cálculo simples: supondo que tenham sido 200 vítimas no acidente, e que cada uma tenha 10 entes queridos, só aí já são 2.000 almas vibrando em uníssono na dor, na angústia, na raiva, na tristeza, na desolação. É impossível não ser afetado por essa energia. É impossível não ser solidário a essas perdas.

Caso algum imbecil pense em vir aqui dizer que ninguém está chorando a perda de não sei quantas vidas no atentado de não sei onde, que ninguém está lamentando as milhares de mortes que ocorrem por subnutrição no mundo inteiro todos os dias, de antemão eu já respondo: vá para a puhta que o pariu, comparar as mortes que acontecem todos os dias em regiões em guerra, ou os problemas crônicos de uma sociedade de miseráveis a um acidente trágico ocorrido na segunda maior cidade da América Latina, é no mínimo uma falácia.

Que se respeite a dor de meu povo.

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  • http://www.ronaldocamacho.com.br Ronaldo Camacho

    E o pior é que tem gente que vai aparecer com essa conversinha sim, sempre tem. É uma manobra suja de tentar transformar vítimas em culpados: o casal assassinado na frente do filho em um semáforo no Morumbi é "culpado" de pertencer à classe média.

    Nesse caso o raciocínio é o mesmo: os mortos do vôo 3054 são "culpados" de viajar de avião enquanto pessoas morrem nas estradas, etc. Esse tipo de gente tem que ser posta pra fora a pontapés. Se deixar que falem sozinhos, eles contaminam qualquer ambiente. Já vieram com essa conversa de que comentar o caso é "explorar politicamente". Queriam calar opiniões desde o momento do acidente.

    Que as famílias encontrem forças p/ suportar o pior, que ainda virá: ter que ouvir o cínico pronunciamento de Lula amanhã.

  • http://felipediesel.net Felipe Diesel

    Isso é muito complicado, mas me arrisco a dizer que todas as pessoas do estado tem alguma ligação com as pessoas que morreram ou pelo menos conhecem alguém que conhece uma das vítimas. Podem até dizer que isso é óbvio, mas hoje de manhã me disseram o seguinte: "Lembra daquele cara… Tava no avião." A sensação é horrível!

    Outra coisa é que tem gente de todos os cantos do estado. Gente de Porto Alegre, Novo Hamburgo, Pelotas, Santa Cruz. Até aqui de Teutônia tinha uma pessoa (que era comissária).

  • http://diadefolga.com Lu

    Não creio que haja brasileiro que não sinta um nó na garganta ao lembrar dessa tragédia, ou ver uma imagem, ou ler uma manchete. Eu não conhecia ninguém que estivesse no avião, mas podia ter acontecido de ter um ex-professor lá dentro (fato que só descobri que era possível depois do acidente).

    Aos que não sabem ser solidários, que vão para o inferno.

    A todos os outros, seres humanos normais, meus sentimentos…

  • http://www.cefrin.com/blog Israel Cefrin

    Janio,

    Conforme o comentario do Diesel, eu pensei naquela teoria dos 6 graus.

    Por serem em grande parte daqui, reparei que não chegava em três o número de nós que me ligava a alguns dos passageiros.

    Seja o ex-presidente do Internacional,a menina de Santa Cruz , o pessoal da Gerdau ou o presidente da Medabil.De algum modo, havia apenas dois graus de separação.

    Essa proximidade torna tão forte a dor da perda. Quando vi o acidente pela TV nem sabia quem eram as vítimas, mas por saber que era de Porto Alegre a origem do vôo, já tinha a sensação de "perda próxima".

    []´s

    Israel