O preço da liberdade
Certa vez fiz um trabalho (na faculdade) que me levou a definir em palavras qual o valor mais importante para minha vida. Muitos apareceram, mas no final o que prevaleceu foi a Liberdade.
Devo dizer que foi — sem trocadilhos — libertador chegar a essa consciência, por uma série de motivos, mas o principal é que a partir daquele momento eu não tive mais o direito de me boicotar com dúvidas sobre o que é bom para mim ou não: se privilegia minha liberdade é bom; se a ataca ou oprime de alguma maneira, é ruim. Simples, dicotômico, quase maniqueista.
Desde sempre tive sangue cigano. Há quem diga que é genético, pois um certo ramo da família vive fazendo mudança, a cada poucos anos a família inteira (umas quatro gerações) se bandeia para uma outra querência.
Só que diferente destes tios e primos distantes (de segundo, terceiro, quarto graus) eu não venho mudando dentro da cidade, ou de e para cidades vizinhas: já perdi a conta de em quantas cidades morei, em quantas casas, mas sei que já estou no terceiro Estado: primeiro Rio Grande do Sul, depois São Paulo e agora Rio de Janeiro.
Quem me vê indo de um lado a outro assim não pode deixar de notar a alegria com que eu mudo. Quando saí de Porto Alegre para morar em São Paulo deixei tudo para trás, no que diz respeito a pertences e bugigangas materiais. Ao mudar para o Rio, agora, praticamente a mesma coisa.
Mas quase ninguém percebe que assim como eu tenho de fazer a escolha por deixar as coisas materiais para quem delas vá fazer uso, eu também preciso abrir mão de relacionamentos, amizades, desejos, sonhos até. São amores que se constroem — sejam amores Ágape, Eros ou Filos — que num dado momento da minha existência preciso chegar para eles e dizer: “meus Amores, vocês não mudam em nada, continuam sendo os mesmos pelas mesmas pessoas, mas a Liberdade me chama e eu preciso ir”.
Às vezes dói.
Por uma fração de segundo chega a bater uma dúvida se o melhor não seria mesmo voltar para o lugar em que nasci (Deus me livre), e acomodar-me por lá para cumprir o resto da minha missão na terra. Mas que porcaria de missão seria essa que me obrigasse a renunciar ao mais importante dos meus valores?
Estou começando uma nova fase da minha vida. São novos hábitos que vêm junto com o novo endereço. Novos convivas. Novos sonhos. Os mesmos valores.
Enquanto a Liberdade quiser que eu fique no Rio de Janeiro, aqui ficarei. E serei — já sou — extremamente feliz.
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