25 Jun 2007
O Assunto segue rendendo
O assunto continua rendendo! Depois que publiquei o artigo Parada Hétero é Viadagem descobri que o Marco também escreveu sobre o assunto (Realmente necessário?), e deixei um comentário lá também. Eis que outro leitor discordou do meu ponto de vista, levantando uma questão que até o momento tinha passado totalmente despercebida por mim: o preconceito que os homossexuais têm contra os héteros.
Acabei imaginando uma situação que me pareceu inverossímil para “justificar” por que eu não acreditava que os héteros sofressem retaliações por parte dos gays: uma notícia no jornal de um jiu-jiteiro que tivesse sido espancado (não necessariamente morto) por um bando de bibas, apenas porque as bibas não gostam das preferências sexuais do imbecil lutador.
Acontece que eu tenho a lembrança de duas histórias reais de violência e discriminação (em que as bibas levam a melhor) colhidas das reminiscências de minha juventude. A primeira eu já contei no artigo “Desezo dzi Matar” e quem não leu ainda pode fazê-lo agora. A segunda, que na verdade ocorreu um pouco antes, é mais grave, e para proteger a identidade dos envolvidos, não vou citar nomes de pessoas nem de locais.
Não lembro exatamente o ano, mas acho que era 1988. Eu havia saído da casa de meus pais, dois anos antes (com 14 anos de idade), e morava numa “república” com mais dois rapazes. No mesmo prédio morava gente de tudo que era tipo, sendo que dois andares acima do nosso moravam dois travestis (os primeiros que a cidade abrigou). Eles não costumavam causar problemas, viviam suas vidas e não se metiam na vida de ninguém — pelo menos era essa a impressão que eu tinha dos vizinhos.
Acontece que eu tinha alguns colegas de aula que não eram as criaturas mais adoradas do pedaço. Viviam fumando, bebendo, destruindo o patrimônio da escola (pública), arrebentando orelhões, incendiando lixeiras, e toda prática comum a esse tipo de verme social. E eles resolveram que iam dar um jeito “nos putão”, e numa madrugada quando os dois travestis voltavam da batalha, após uma passada na padaria que abria mais cedo na cidade, foram covardemente atacados por um grupo de delinqüentes juvenis, que além de roubarem toda a féria das duas vítimas as espancaram tanto que as deixaram inconscientes junto ao meio-fio. Por sorte alguém da padaria presenciou o acontecimento, e chamou a polícia, que para variar chegou quando só estavam mais os dois corpos ensangüentados e inconscientes jogados na sarjeta.
Os dois foram levados para o hospital, e após uma longa recuperação voltaram para casa, apenas para fazer a mudança para algum lugar incerto e não sabido. Ficaram meses fora, e voltaram para a cidade, que na condição de província logo ficou “em alerta”. O motivo da apreensão era que os dois deixaram claro que tinham passado meses fora (entre a noite da surra e a volta creio que tenha se passado pelo menos um ano) aprendendo artes marciais e autodefesa, e que iriam pegar um a um aqueles covardes que os puseram no hospital uma vez.
O fato é que as bibas sumiram, ninguém as via. Mas um a um aqueles rapazes todos que participaram do espancamento começaram a aparecer quebrados em madrugadas aleatórias. Eles não admitiam, talvez por algum código de honra peculiar a quem anda em ganguezinha, sei lá, mas todo mundo sabia que eram “os putão” quem os espancavam. Curiosamente, cada espancamento que os dois cometiam era menos violento do que o próximo. E os dois elementos mais asquerosos da ganguezinha pareciam estar sendo poupados, mas haja vista essa estatística de crescimento da crueldade, não creio que eles achassem isso bom.
Finalmente, contudo, a hora destes chegou. Do penúltimo não sei o que foi feito, na verdade desde aquela época que nem lembrava mais que a criatura existia. O último, entretanto, virou uma figura folclórica, ao menos entre aqueles que conviveram comigo naquela época. Era o mais marginal de todos, o mais bandido, o mais cruel, e foi o que mais apanhou. Os seus algozes espalharam na cidade inteira que tinham surrado ele na esquina do hospital porque não queriam que ele morresse, apenas que passasse pelo mesmo que eles passaram por sua causa. Disseram que bateram apenas em um dos olhos, porque o outro era pra ele enxergar o que aconteceu com ele; também disseram que bateram do mesmo lado do corpo, porque se ele perdesse um rim ou um pulmão ainda sobraria o outro. e que uebraram ossos, porque sabiam que recalcificariam.
Naturalmente, os dois foram embora da cidade, logo depois daquilo. Não sei se é porque sua missão de justiceiras do arco-íris estava cumprida, ou se porque ninguém é trouxa de ficar brincando com o azar, correndo o risco de serem presos e terem de responder algum processo, ou de verem o sol nascer quadrado por alguns meses ou anos. O fato é que sumiram.
Eu havia começado esse texto em tom jocoso, e planejava que fosse uma grande tiração de onda com a cara de todo mundo que se leva muito a sério, ou que se preocupa demais com o que os outros fazem com seus apetrechos sexuais (no conotativo e no denotativo). Imaginava situações em que os zelotes puritanos trocavam de lugar com as bichas, ao menos em número, para saberem o que é ser uma minoria. Mas relembrar estes fatos me fez refletir um pouco mais, e é claro que não cheguei a uma conclusão.
Só posso mesmo é agradecer a meu pai, que por mais autoritário que tenha sido sempre ensinou a respeitar de maneira absoluta as outras pessoas, para poder merecer respeito, que fez um trabalho tão bom ao educar-me que com 14 anos de idade eu já era maduro o suficiente — os fatos mostram isso — para viver sozinho, sem nunca me meter em nenhum tipo de encrenca grave.
Não sou ninguém para julgar, mas devo admitir que regozijei-me, naquela época, quando soube que o fulaninho aquele estava no hospital, já cego de um olho e em lenta recuperação, por ter levado o maior couro “dos putão”. Porque como eu era do tipo nerd, gordo, de óculos, que preferia passar uma tarde no laboratório de eletrônica do que numa quadra de basquete, bem como não sabia brigar com ninguém, era constantemente constrangido e ameaçado por eles (esse cara e sua ganguezinha). Quando a notícia chegou, senti uma satisfação como se alguém tivesse me vingado por todo o medo e a covardia a que eu fora submetido.
Para finalizar, pois até aqui já são quase 1.200 palavras — para quem gosta de escrever 400 — reitero meu comentário no blog do Marco: é absurdo que a maioria se sinta discriminada pela minoria. Se há gays que têm preconceito contra os héteros, é necessário fazer uma análise, mesmo que superficial, nas causas que levam a esse preconceito. Se para héteros é fácil ter preconceito contra o diferente, para gays é natural terem o sentimento de revolta para querer combater fogo com fogo.
Queira Deus que se um dia eu tiver um filho e ele acabe se descobrindo gay, que a sociedade já esteja mais madura e tolerante com a diferença. E que se ele for hétero, que as bibas não tenham se tornado maioria, para que meu filho não precise temer nenhuma represália se quiser dar um beijo na boca da namorada dentro do shopping center.
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Jânio, para mim isso não foi preconceito por parte dos travestis, e sim vingança mesmo.
Se foi preconceito, eu não entendi.
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Marcus.
Comecei escrevendo sobre um assunto e terminei em outro. Cabeça de blogueiro que não tem que cumprir cartilha é assim mesmo.
E você pensa como eu, os rapazes foram espancados por vingança, não por preconceito.
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Realmente foi vingança. Sobre o assunto original, foi oq ue falei no blog do Marco, se não existe um motivo real ( e não me pareceu que existia um) é apenas especulação. Vontade de aparecer na mídia.
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Para complementar sua idéia, não acredito nessa espécie de preconceito invertido generalizado (talvez só isoladamente em algumas pessoas) de gays contra héteros. O que talvez leve alguém a acreditar nessa idéia seja a reação natural de pessoas encurraladas em uma sociedade que é sistematicamente marginalizante. A violência, a exclusão, os olhares repreendedores tendem a gerar um comportamento muitas vezes confundido com preconceito mas que nada é além de medo, auto-proteção de quem se sente ameaçado.
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Pois é, preconceito de homossexuais contra heterossexuais soa muito estranho. Até pq preconceito geralmente se cria durante a formação: você é ensinado pelos seus parentes (ou igreja) à desprezar determinada classe de pessoas.
Homossexuais são criados para serem heterossexuais por seus pais (quero dizer, nunca ouvi falar do contrário), e só depois é que descobrem que gostam de pessoas do mesmo sexo.
Seria no mínimo estranho escutar alguém falando algo do tipo “virei homossexual porque tenho muito ódio desses heteros nojentos” ahsuhahsuahu.
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[...] carona no que o Janio falou (ainda que um pouco atrasado), hoje vou falar um pouco sobre o preconceito e a op褯 sexual de cada [...]