30 May 2005

Não li, não gostei.

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Graças a Deus, tenho o privilégio de ter amigos muito inteligentes. Até pode ser que algum seja meio burrinho, mas não consigo nem lembrar de algum assim. Apenas lembro que são pessoas geniais, de um ou de outro jeito, com inteligências distintas, mas todos especiais.

Uma de minhas amigas mais privilegiadas em termos de inteligência, cultura e atitude, me disse uma vez: “sabe, Janio, por muito tempo eu me senti culpada por gostar de Roberto Carlos, e ouvia suas músicas escondida, sozinha em casa”.

Digo isso para falar de um ranço de que os intelectualóides ainda não se livraram: de que se a maioria gosta, então é ruim. Não estou com isso defendendo letras toscas nas quais “apê” rima com “bundalelê”, ou “bom xibom xibom bom bom” vira refrão de crítica social. Mas não há como negar que “Cavalgada” é um dos poemas mais belos que já se musicaram em Português, andando bem ao ladinho de “Fera Ferida” (para ficar com o exemplo do popularíssimo Roberto Carlos).

Em termos de literatura já faz tempo que é moda execrar Paulo Coelho, e recentemente Jô Soares e Dan Brown (”O Código Da Vinci”). Já li os dois primeiros e estou lendo o terceiro, por isto mesmo tenho cacife para opinar.

Se o que caracteriza as críticas sobre Paulo Coelho são as acusações de redação de aluno do primário, o que pesa sobre o Jô são as de superutilização de clichês. Ainda não li seu mais recente livro, Assassinato na Academia de Letras, ou coisa assim. Mas li “O Xangô de Baker Street”. Gostei, achei divertido, interessante, bem escrito. De Paulo Coelho li “O Alquimista”, “Brida”, “As Valquírias” e “Diário de um Mago” (não necessariamente nesta ordem). Eram outros tempos, minhas exigências e interesses bem diferentes dos atuais. Mas de fato Paulo Coelho consegue o que muitos escritores tentam desesperadamente: fazer com que o público leia.

De Dan Brown estou lendo “O Código Da Vinci”. Não sei até que ponto é verdade o que ele escreve sobre o Priorado de Sião (quem quiser informações a respeito e souber ler em Inglês, no site http://www.priory-of-sion.com/, do pesquisador Paul Smith, de acordo com o Google a maior autoridade no assunto), mas o fato é que o romance é bom, e não lixo como muita gente o rotula. Lá para os lados de Portugal os debates andam bons (vide este blog, por exemplo), embora a questão toda acabe descambando para o lado da fé.

Talvez seja mesmo isso que faça tanta gente chamar o livro de Dan Brown de lixo: o vilão que ele escolheu para a estória (logo nos primeiros parágrafos fica claro que um determinado monge comete quatro assassinatos em nome da Igreja, a mesma santa que acoberta padres pedófilos).

Note-se que Brown não pretende ser um documentarista ou historiador, apenas um romancista. E ele escreve um romance em que cada capítulo é deliciosamente amarrado ao anterior, daquele tipo que o leitor se puder não pára de ler até a última página. E embora sejam altamente fantasiosas as situações (como a fuga de dentro do Banco da Suíça conduzida pelo próprio gerente disfarçado de chofer), elas são verossímeis. na faculdade de Letras a gente aprende que uma das principais características de um bom texto de ficção é a verossimilhança.

Enfim, retomando o raciocínio original: acho que existem três tipos de críticos que rachaçam o que a maioria gosta, e que cito abaixo em ordem crescente de mediocridade.

Primeiro, aqueles que lêem (ou ouvem, assistem, não importa) e não gostam, e criticam justamente por não ter gostado.

Segundo, aqueles que não lêem nem nunca vão ler, mas criticam porque acham que vão ser melhores se criticarem o que a massa aprecia.

Terceiro, aqueles que não importa se vão ler ou não, mas vão criticar porque morrem de inveja de uns “idiotas” que escrevem uns livros “imbecis” e vendem milhões e forram o bolso de dinheiro.

Carpe diem.

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