27 Dec 2004

“Morreu na contramão atrapalhando o trânsito”

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Dia 23 próximo passado presenciei uma cena totalmente dispensável, que não narrei aqui antes porque o host estava com problema no Perl e o MT não estava funcionando. Foi uma cena que me fez entender que eu não fico depressivo no natal, isso é pura ilusão!

Eu sempre saio de casa por volta das 8h 30min, portanto era mais ou menos isso quando resolvi subir a escadaria da Borges, em direção à Duque. Normalmente vou por baixo, mas naquele dia resolvi ir por cima, não sei por quê. Vi que tinha muito ajuntamento de gente, mas não me dei conta de que algo poderia estar acontecendo. Até que olhei com atenção para baixo, e vi um corpo estendido no chavão, digo, no chão. O crânio do rapaz estava esfacelado, havia pedaços do côco do cara espalhados, bem como de uma substância que julguei ser o cérebro dele. Creio que o sujeito tivesse uns trinta e poucos anos de idade.

Pouco mais à frente havia um ônibus parado, e o motorista jazia no chão, sendo atendido pelos paramédicos. Segundo soube pouco depois, o suicida estava no viaduto controlando o momento de quando viesse um ônibus, para se jogar na frente. Caso não morresse da queda, morreria do impacto e do arrasto com o veículo. O motorista do ônibus claro que levou um tremendo susto, e teve parada cardíaca, sendo necessário passar pelo procedimento de reanimação, que felizmente deu certo.

Há algum tempo que eu aprendi que não sou absolutamente ninguém para julgar quem ou o que quer que seja. Sou radicalmente contra o suicídio (embora já tenha tido minha fase de ameba que achava que suicídio seria solução para alguma coisa), mas respeito a decisão do sujeito. Afinal, no momento em que ele resolveu dar cabo da própria vida, ele assumiu os riscos e o ônus provenientes.

Mas não posso deixar de ficar indignado com o tipo de morte que o cara escolheu. Afinal, por um triz ele não matou o motorista do ônibus, que simplesmente estava fazendo o seu trabalho, e exercendo a imensa responsabilidade que ele tem normalmente, transportando dezenas de vidas humanas diariamente. Imagino-me no lugar dele, que de repente teve seu dia de trabalho interrompido por um filho da puta que não podia simplesmente se enforcar com o cinto numa árvore distante, ou morrer afogado no próprio vômito, se é que não tinha dinheiro para comprar veneno ou para meter uma bala na cabeça. Isso seria muito pouco, chocaria quase nada. Morrer não seria suficiente, o patife tinha de morrer causando culpa em mais um monte de gente, principalmente gente inocente.

Conversei com umas poucas pessoas sobre o assunto (confesso que no dia eu estava muito chocado), e todas foram unânimes em dizer que acham que a causa deste tipo de fato (que não deve ser singular, haja vista a existência de uma lei que proíbe que os meios de comunicação dêem notícias de suicídio) reside nas desigualdades sociais, na ênfase excessiva que a sociedade dá ao aspecto consumista das festas de fim de ano, etc. Tentei argumentar que essa teoria é furada, por causa do livre arbítrio, mas a contra-argumentação é que é impossível para quem tem menos (posses materiais) ter a autoestima em ordem. Normalmente encerro a discussão por aí, pois não tenho energia pra desperdiçar em discussões estéreis.

Mas eu acho mesmo que não são os covardes que se matam, e sim os egocêntricos prepotentes. Porque eles não querem apenas deixar de viver, querem é chamar atenção, é fazer com que os outros se sintam culpados pela sua “desgraça”. Abotoar o paletó de madeira não é suficiente, é necessário dar um show! Virar presunto não basta, é necessário empestear a via pública com restos de crânio e seu recheio, é necessário atrapalhar o dia de dezenas de pessoas. Morrer na contramão é mister, pois o principal objetivo é justamente atrapalhar o trânsito.

No fim das contas, talvez o comentário mais sensato tenha sido do mendigo que presenciou a cena toda, e me deu as informações que eu não poderia deduzir: “um cara desses, que tinha a vida inteira pela frente pra resolver qualquer problema por mais grave que fosse, e se mata, a utilidade dos miolos dele só pode ser essa mesmo, ficar sujando a avenida”.

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6 Respostas para ““Morreu na contramão atrapalhando o trânsito””

  1. Gustavo Cardoso on 27 Dec 2004 at 3:43 am

    E ae cara blz???

    Putz eu nem sei mais o que pensar sobre suicídio viu…
    na verdade eu acho que isso é um grande paradoxo, pois o sujeito para se matar está assinando um atestado de fraqueza e mostrando pra todo mundo que está desistindo de lutar e tentar resolver seus problemas, mas ao mesmo tempo tem que se ter uma puta coragem para tirar a própria vida… Uma migo meu se matou no mês passado, é foda isso tudo!
    Mas a vida continua!!!

    Feliz Natal atrasado e um Próspero Ano Novo…
    Sucesso!!

    []´s

    [Reply]

  2. Dael on 28 Dec 2004 at 1:31 am

    Concordo com o que você disse sobre a cena toda que o cara causou. Poderia, sim, ter se matado longe de todo mundo, consigo mesmo. Mas não sei se o sujeito merece ser tão crucificado, inclusive a despeito do que você falou. “…não sou absolutamente ninguém para julgar”. O ato em si pode não ter sido apenas para amputar a própria vida, mas também para enviar uma mensagem ao sistema e aos seus integrantes. Quando coisas desse tipo acontecem, (geralmente) são consequências de alguma doença que insiste em afetar a sociedade.

    [Reply]

  3. Janio on 28 Dec 2004 at 10:16 am

    Dael, esse ponto que você levanta é extremamente importante, pois suscita uma outra questão: quem é a sociedade? Que entidade amorfa é esta, que é todos, mas ao mesmo tempo não é ninguém?

    Reiterando minha opinião sobre suicídio, reafirmo que tirar a própria vida é apenas uma tentativa infantil de chamar atenção, como aquelas crianças chatas que têm chilique no supermercado porque os pais não dão o que elas querem ganhar.

    Um cara que se mata certamente tem problemas de relacionamento com pai, mãe, namorada ou namorado, com o chefe, sei lá. O suicídio é a saída mais suja, pois não dá chance ao outro de participar da “solução” do problema, ao mesmo tempo em que o deixa com todo o peso da responsabilidade, pois foi o outro quem restou vivo.

    Todos os problemas têm solução exclusivamente em quem está passando por ele. Se algo não tem solução, solucionado está. Não consigo encontrar nenhuma justificativa que não seja absurda para um suicídio (talvez um hara-kiri, ou uma ação kamikase, mas ainda assim é absurdo).

    Um dia desses prometo escrever sobre minha experiência (frustrada, como podem perceber) como suicida.

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  4. Rafael on 29 Dec 2004 at 8:47 am

    O suicídio pode ser visto como uma abdicação, uma renúncia, à sociedade em geral. Pode ser egoísmo e pode ser apenas necessidade de atenção. Mas muitas vezes é uma saída calculada pra quem viu que a relação custo/benefício (para ele/a) é sempre negativa.

    [Reply]

  5. jair on 07 Mar 2007 at 7:30 pm

    acredito que antes de julgarmos alguem temos que tentar entender ,afinal vivemos num mundo onde as pessoas nem se olham mas um mundo frio onde quem sabe se esse homme tivesse encontrado alguma palavra de conforto de carinho poderia tentar desistir da ideia me espanta a forma fria como se refere a vida de alguem como se esse ser humano nao tivesse sofrendo . afinal posso resumir tudo com uma frase so quem passa e quem sabe

    [Reply]

  6. Janio Sarmento on 07 Mar 2007 at 7:39 pm

    Ah, claro, Jair… O cara tinha problemas e isso lhe deu o direito de se jogar diante de um ônibus lotado, pondo em risco não só a vida (inclusive no aspecto profissional) do motorista, mas de todas as pessoas lá dentro.

    Com ou sem problemas, o cara foi filho da puta ao se jogar na frente do ônibus. Qualquer um que faça isso merece ser chamado assim.

    Não sabe brincar? Não desce pro play. Quer se matar? Enfie uma bala na cabeça. Não tem dinheiro pra bala? Entre no mar, ou num rio, e foda-se. O que ninguém tem o direito é de tirar a vida de outras pessoas, ou prejudicá-las de qualquer maneira, apenas porque não tem culhão para enfrentar os problemas da vida.

    E isso não é ser frio, é ser racional, realista.

    [Reply]

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