Um blog que acompanho por gostar do que o cara escreve é o Movido a Vapor, do Paulo Diesel. Não o conheço, no amplo sentido do termo, mas conheço o que ele pensa, pelo que ele escreve, e conheço um de seus filhos — meu amigo e cliente da PortoFácil.
Há poucos dias ele publicou um artigo intitulado “O que fazer para amenizar a fome no mundo?”, que tem uma carga imensa de culpabilização. Primeiro do próprio Paulo, sentindo-se mal por poder curtir com a família uma festa ótima (festival de queijos e vinhos) na serra gaúcha, enquanto tanta gente passa fome mundo afora.
Fui o primeiro a deixar um comentário lá, li o post dele pelo celular e pelo celular mesmo comentei, sob todas as dificuldades que essa plataforma implica, porque não acho justo, em hipótese alguma, que um sujeito trabalhador, cumpridor dos seus deveres, até onde eu sei pai exemplar, profissional responsável e acima de tudo um homem ético, venha a se colocar numa situação de constrangimento por conta de uma culpa que não é, definitivamente, sua.
No comentário que deixei lá no post do Paulo, comentei que ele prestigiar a festança na companhia da família era, acima de tudo, uma mostra de que ele e a família mereciam estar lá, bem como manifestação de respeito pelo trabalho de quem faz aquele festival, pessoas que estão lá trabalhando para eles também sustentarem suas famílias com dignidade.
Que mal há em se viver com dignidade?
Mas o que me deixa puto mesmo não é a atitude do Paulo, mera vítima de uma cultura de se penalizarem os trabalhadores, vítima da cultura da culpabilização que assola o planeta. O que me deixa indignado é a manifestação dos ativistas de poltrona, que à guisa de se mostrarem preocupados com a situação do semelhante vomitam asneiras nonsense.
Por exemplo: quem fica indignadinho que os restaurantes diariamente jogam fora centenas de quilos de comida que poderia ser utilizada para alimentar famílias carentes, deveria tentar informar-se minimamente antes de aludir que os comerciantes são monstros insensíveis. Talvez estas criaturas — caso o cérebro permitisse — descobrissem que um comerciante não pode utilizar as sobras de comida para alimentar pessoas, porque ele se torna responsável por estas pessoas: há uma lei federal que proíbe a doação de comida! E é claro que isso tem uma razão de ser, seja ela razoável atualmente ou não.
Quem quiser fazer diferença tem é que fazer três coisas.
- Fazer pelo próximo tudo o que achar que tem que fazer: o Paulo tem mais que o direito, tem a obrigação de se sentir culpado se, e somente se, ele tiver consciência de que tem mais a fazer pelo semelhante do que ele vem fazendo.
- Lutar pela adequação da legislação: se as leis são antiquadas (como a que proíbe a doação de comida, de 1916, porque naquele tempo as condições de acondicionamento e transporte eram muito piores do que as de hoje, e olhe que um século depois as coisas ainda são tenebrosas).
- Fazer valer a legislação vigente, fazer valer os direitos de cidadão, cobrar atitude de quem se comprometeu com isso e não faz a sua parte (estes sim deveriam se sentir culpados, não o Paulo).
Em vez de o Governo Lula emprestar dinheiro ao FMI ele deveria era fazer cumprir as regras, sistemas, programas, leis e o diabo a quatro que eles garganteiam (eles, pois eu não votei nem voto em nenhum destes políticos, meu voto sempre será nulo).
Queria saber se essa gente que ataca os empresários que “desperdiçam comida” (porque não têm alternativa perante a lei) nunca pensou que o dinheiro que os Estados Unidos injetaram na massa falida dos bancos, nos meses recentes, seria suficiente para resolver definitivamente a fome do mundo.
A pior coisa que existe é a ignorância, e pior ainda ela fica quando travestida de engajamento social à la complexo de Robin Hood. Em outras palavras, moral de cueca não dá pra suportar.






Caramba! Estava inspirado quando escreveu esse texto, hein Jânio Sarmento.
Concordo contigo. Essa síndrome de cachorro vira-lata, de penalizar quem faz as coisas direito é um saco.
E esse engajamento social de Internet (ou como diz o Cardoso, Betinho do sofá) querendo dar uma de Robin Hood é outra coisa que dá no saco.
Parabéns pelo texto.