“Minha filha, você quer ser inteligente ou quer ser linda?”
Logo que comecei a trabalhar na minha profissão, uma das coisas que mais marcavam era a ausência de mulheres no “metiê”. Não que não houvesse, mas eram muito poucas, e todas eram consideradas feias — tão feias quanto inteligentes. Daí surgiu uma piadinha infame, que dá título a esse texto, dando conta que quando uma mulher iria reencarnar Deus a chamava num canto e perguntava: “minha filha, você quer trabalhar com informática ou prefere ser linda?”.
O assunto veio à tona hoje por causa de um “twit” de uma moça que eu sigo, cujo nome é Carla (link para o twit). Nele a Carla dizia o seguinte.

Eu dei à Carla — que é uma mulher inteligente, bonita e vaidosa (basta ver seu avatar no Twitter) — uma resposta breve (tanto quanto 140 caracteres me permitiam), dando conta do meu ponto de vista: a maioria das mulheres acha que beleza é suficiente, por isso negligenciando a inteligência. Mas o assunto merece um pouco mais de reflexão, ou desenvolvimento da minha teoria.
Para começo de conversa, assim como o mundo é homofóbico e racista, também é — ainda — machista. Nessa sociedade governada por “machos” (na acepção mais instintiva do termo) é normal que uma fêmea seja avaliada pela sua possibilidade de ser uma boa reprodutora, capaz de bem nutrir a prole, antes de ser avaliada por seus quesitos mais evoluídos. É como diz aquela outra piadinha.
Um homem tinha três namoradas, e não sabia com quem casar. Deu então mil Reais a cada uma e depois de uma semana perguntou o que era feito do dinheiro. A primeira devolveu os mil Reais intactos ao namorado; a segunda havia torrado toda a grana em futilidades; a terceira havia investido no mercado de ações, e em uma semana conseguira triplicar o capital do namorado. Pergunta: com quem o homem decidiu casar? Resposta: com a namorada que tinha a bunda mais gostosa.

Ana Paula Padrão: burra e feiosa... NOT!
Entretanto, a “culpa” não é só dos homens. As mulheres, em seus papeis de mães, também têm uma grande participação na formação desta cultura.
Lembro de uma festa de aniversário a que fui no verão passado. De todos os presentes, amigos da época do segundo grau, o único que não casou e teve filhos fui eu. Assim, a festa estava cheia de crianças de todas as idades. Como o assunto dos adultos estava um porre (só se falava de futebol e de trabalho) fui para o lado das crianças, tentar me divertir um pouco. Uma das meninas estava enchendo o saco das outras crianças, querendo brincar onde não era desejada, e um menino vociferava: “você não pode brincar aqui com a gente, você é burra e não entende as nossas regras”. A menina aparentemente ignorava a humilhação, e seguia pentelhando. Então uma outra menina puxou da espada verbal e decapitou a chatinha: “saia daqui, sua feia, vá pentear esse cabelo de vassoura que você tem”. O resultado foi que a menina que até então não se abalava com nada entrou em desespero, chorando e gritando como se o mundo estivesse acabando. Correu para os braços da mãe, que por sua vez a acalmou dizendo algo como “você é a linda da mamãe e do papai, aquela menina é que é feia, a mãe dela também é, todo mundo da família é, por isso ela é recalcada e xingou você, que é linda”.
Depois desse dia passei a prestar mais atenção em como pais e mães próximos a mim transparecem ensinar às filhas essa relação de si com a beleza, e constatei que este tipo de coisa é muito comum.
Uma outra observação que devo fazer é sobre o que normalmente se diz ao ver uma mulher com um homem do tipo tranqueira: “tão bonita, poderia ter qualquer homem aos pés dela, por que foi encantar-se com esse traste?”. Não interessa o QI, a competência, a criatividade, ou quantos idiomas a mulher fala, nem se ela cozinha bem, é matrona e sabe educar filhos. O que deixa os homens aos pés de qualquer mulher, segundo a crença popular, é a beleza.
Por fim, gostaria de deixar bem claro que sou um homem feliz, capaz de reconhecer a beleza e a inteligência das mulheres, quando estas andam juntas. Apenas para ilustrar, aponto a jornalista Ana Paula Padrão, exemplo de competência, inteligência e todos os demais atributos que se possam listar, além de ser uma das mulheres mais lindas que o mundo já viu.
Ou seja, Carla: não precisa ser feia para ser intelectual, não!
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