Java na cabeça


Seguindo a onda de posts requentados, trago aos leitores uma coisinha que foi escrita há seis anos, quando eu ainda acreditava que uma certificação em Java poderia me fazer um grande profissional, quando eu ainda cumpria horário em uma empresa detestável, e quando morava num lugar supimpa — mas bem menos supimpa do que o lugar em que moro agora. (Inicialmente publicado em 28 de outubro de 2004.)

Sexta-feira à tardinha, a cidade cheia de gente lerda, daquelas que ficam atrapalhando a vida de quem quer passar. Talvez por obra de alguma coisa que eu tivesse comido no almoço, o sistema digestivo dava provas constantes de que estava funcionando perfeitamente, e clamando pela oportunidade de concluir o processo de eliminação das substâncias inúteis ao organismo.

Fiz todo o trajeto do trabalho até a esquina da Borges com a Riachuelo desviando o que pude das pessoas que atrapalhavam minha passagem. Porém, enquanto atravessava a rua percebi que haveria estresse alguns metros à frente: havia um grupo de cabos eleitorais do Fogaça, empunhando bandeirinhas e caminhando com passo de lesma aleijada justamente próximo ao ponto de ônibus, onde a concentração de pessoas ocasiona que apenas um pequeno corredor da largura de uma única pessoa fique disponível para passagem.

Quando eu me aproximava do grupinho, eis que uma pessoa vem em direção contrária, e ao encontrar uma pessoa do grupo ambas param, congestionando totalmente a rua. Não, não tenho nada contra quem abraça e beija os amigos que encontra na rua, mas tenho verdadeiro asco de gente burra.

Ante a situação de trânsito parado, as vísceras ficaram ainda mais nervosas, e pedi licença ao grupinho. Pedi uma vez. Duas. Três. Quatro. Na quinta vez perdi a paciência, e dei um barrigaço no filho da puta rapaz que estava à minha frente. Ele ficou pos-su-í-do (ui!) e ao virar para finalmente sair do transe em que parecia estar acertou com aquela bandeira fétida no meu rosto.

Aí não prestou.

Quem me conhece sabe que estou estudando Java, e que meu principal material de apoio é um livro de umas 500 páginas, que eu vinha carregando em uma sacolinha dessas que se ganham em lojas de presente. Ante o inusitado da situação, e o nível de raiva em que eu me encontrava, não tive dúvida: sentei o livro na cabeça do cara!

Gritos de “mas o que que é isso” foram abafados por minha frase dita no tom mais grave: “se não têm o que fazer, não atrapalhem quem trabalha, seus filhos da puta”!

A mina que estava com o cara: “eu não posso andar mais rápido, estou com problema no joelho.”

Eu: “cala a boca que eu não falei contigo.”

O cara falou alguma coisa, mas eu realmente não entendi o que era. Só rebati assim: “vai à puta que te pariu, seu merda, eu só não te parto ao meio porque nem tamanho de homem tu não tem”.

E fui pra casa rapidamente, pois parece que num passe de mágica todas as pessoas mala sumiram do meu caminho.

E a única coisa que me deixou realmente chateado foi o fato de que, com certeza, os bostas ficaram pensando que eu era petista. Putz…

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