04 Oct 2005

Eu sou tímido

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Geraldo Azevedo canta em Dona da Minha Cabeça: “eu digo e ela não acredita, ela é bonita, é demais. Eu digo e ela não acredita, ela é bonita, é bonita”.

Parafraseando-o, eu atesto que digo que sou tímido e ninguém acredita. Talvez os menos próximos acreditem, mas não sei por quê logo mudam de opinião.

Quando entrei para a empresa para quem trabalho hoje era comum eu ouvir das gurias comentários do tipo: “olha, o Janiozinho ficou vermelho, tadinho!”. Logo os comentários passaram a ser: “não entendo como ele fala as coisas e depois fica vermelho!”. Hoje quando alguém percebe (o que é raro) uma crise de timidez minha, o comentário que vem é “mas que safado, fala essas barbaridades e ainda fica vermelho!”.

Na verdade, minha timidez era patológica na infância. Eu era o tipo de criança que se esconde quando chega visita. Raras eram as pessoas em quem eu confiava. Eu tinha um sentimento que qualquer pessoa que se aproximasse quereria apenas humilhar-me, razão pela qual eu vivia escondido.

Na adolescência, quando os outros guris estavam pegando as guriazinhas na escola, assumindo seu lugar como machos do galinheiro, eu morria de medo de ser humilhado pelas meninas, morria de medo que rissem de mim, do meu jeito, da minha voz, dos meus gostos.

Até que um dia, ainda adolescente, saí de casa e fui trabalhar no Banco do Brasil. Lá eu tinha de estar em contato direto com mais de uma centena de colegas (bons tempos), e logo depois passei também a exercer algumas atividades relacionadas a atendimento ao público. Alguém sabe o que é ter pânico quando ouve uma campainha de telefone? Imaginam a qualidade do meu atendimento aos clientes, se eu tinha um medo desesperado que eles fossem debochar de mim?

Um dia caiu a ficha: se continuasse daquele jeito eu não ganharia o suficiente para comer (e a profecia se realizaria numa velocidade assustadora). Eu não tinha escolha: ou enfiava a timidez e a “vergonha” em algum canto, ou não teria um futuro dos mais brilhantes. De um instante para o outro a transformação ocorreu, e os próprios colegas se assustavam com minha eficiência ao telefone. O ponto alto foi quando um cliente, o Seu Enis, um velhinho de bigodes brancos que freqüentava a agência e me chamava de “filhão” mandou uma carta ao gerente da agência elogiando a minha atuação no atendimento aos velhinhos.

Desde aquele tempo (praticamente vinte anos atrás) eu venho então trabalhando minha timidez, que mais tarde descobri poderia ser melhor descrita, na maior parte do tempo por paranóia. Creio que o condicionamento antigo já tenha sido em grande escala substituído pelo novo comportamento. Mas de vez em quando, ao fazer uma brincadeira com um amigo, no trabalho, ao falar algo que eu realmente quero ou gostaria, o sentimento de “vergonha” me invade, a garganta sufoca, o rosto enrubesce, as mãos secam, e quase falta voz para dizer o que tem que ser dito.

Se isso não é timidez, então sei lá!

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2 Respostas para “Eu sou tímido”

  1. ByM on 05 Oct 2005 at 9:37 am

    Eu já imaginava que vc era tímido desde a nossa primeira conversa pelo msn, fora que sempre que alguem lhe faz um elogio vc usa o famoso emoticon da carinha envergonhada, hehehehe…

    Bom, você sabe o que eu penso a seu respeito e como lhe admiro, com ou sem carinha envergonhada… :P Como tb sou tímido sei exatamente o que vc quis dizer nesse texto…

    Bom deixo aqui um abraço…

    [Reply]

  2. Sidnei on 05 Oct 2005 at 11:01 am

    Nossa, nas duas vezes que nos vimos pessoalmente, achei que seu jeitinho era apenas uma dose maciça de doçura e não timidez. Você se protege com bom humor e sarcasmo e me iludiu pacas. Na próxima vez que nos virmos (pelo andar da carruagem, em 2008. Credo!), vou prestar mais atenção.
    Mas os tímidos são assim, mesmo. Primeiro a reclusão quase misantropa (essa palavra existe?), depois o humor ora doce, ora ácido. Acho que por isso ou te “odeiam” (como quem fez aquela comunidade ridícula no Orkut- se bem que o Orkut em si também é ridículo, mas isso não vem ao caso agora) ou te amam. Pelo que me consta -mesmo sabendo que serei execrado pelo tom boiola do que digitarei- eu te amo. Demais da conta até.

    Sidnei, o apaixonado pela vida e por quem vive nela.

    [Reply]

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