04 Aug 2005

Entendendo Raul Seixas

Arquivado em: Diversos

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É interessante observar a maneira como as coisas vão acontecendo na vida da gente. Não são tão raras as situações em que o sujeito possa ser confrontado por seus próprios valores, vindo a descobrir contradições em si que nos outros seriam condenáveis. E também é interessante ver como muita gente desperdiça a oportunidade de reflexão apenas porque… Bem, eu não sei por quê. Medo, talvez, ou preguiça, ou desânimo, ou alguma outra coisa que eu nem imagino.

Há uns três dias um amigo me falou (pessoalmente) da FreeNet. Gostei do conceito, entusiasmei-me, e resolvi ler mais sobre o assunto. Afinal, para um sujeito que sempre acreditou ser liberal e libertário como eu, um sistema que premia a liberdade de expressão por meio de uma rede totalmente descentralizada e criptografada tem um valor inestimável. E ao estudar mais sobre o assunto cheguei à página de perguntas freüentes sobre o programa, mais especificamente a esta pergunta.

What about child porn, offensive content or terrorism?
While most people wish that child pornography and terrorism did not exist, humanity should not be deprived of their freedom to communicate just because of how a very small number of people might use that freedom.

Li isso e o chão sumiu de sob meus pés. Senti-me sem bases, pois eu acabava de confrontar uma contradição pessoal importantíssima: apesar de acreditar e apoiar a liberdade de expressão, eu senti que era a favor do cerceamento de alguns tipos de expressão.

Como isso? Que tipo de liberdade é essa que proíbe? Por que não combater com idéias as idéias terroristas ou pedófilas que porventura venham a aparecer nesse “espaço” de liberdade intelectual?

Passei alguns dias em um debate íntimo acerca desta questão. Algo estava errado, havia um “bug” terrível no programa, algo como um erro no tratamento de erros.

Ontem tive a primeira aula de Gestão Empresarial na faculdade. O professor é o mesmo de Fundamentos de Sistemas de Informação, e uma das suas principais características é o enfoque humanista que ele dá à matéria, o que me agrada bastante (não quero ser um tecnólogo sociopata especialista em máquinas e ignorante em relacionamentos humanos). E o enfoque principal das aulas dele, em Gestão Empresarial, divide-se entre empreendedorismo e liderança.

O primeiro trabalho que ele fez conosco visou, entre outras coisas, identificar os principais valores pelos quais cada um dos alunos conduz a própria vida. Não foi fácil fazer o exercício, chegava a dar uma angústia em determinados momentos.

Primeiro ele apresentou uma listagem com uns cento e cinqüenta termos, como “honestidade”, “liberdade”, “atitude ética”, “segurança financeira”, “mudança”, “prazer”, “dinheiro”, etc. Desses todos era para cada um escolher os dez com que mais se identificasse. Desses dez ele mandou reescrever cinco numa listagem à parte (e esse momento já foi difícil). Dos cinco ele mandou riscar um (e foi doloroso). Dos quatro restantes, riscar mais um (ao menos para mim, foi menos difícil que o primeiro corte). Dos quatro que sobraram, mandou riscar mais um, e depois mais outro (era como se estivessem arrancando um pedaço de mim). No fim ficaram apenas dois valores (no meu caso “Verdade” e “Liberdade”), e ao invés de riscar um que se descartaria, era para escolher um que se destacaria. Acabei optando por “Liberdade”.

Liberdade é o valor que rege minha vida, concluiu-se pela dinâmica.

É interessante notar que este movimento todo na aula de Gestão foi uma maneira diferente de expressar o mesmo fundo do meu conflito inicial, sobre a liberdade de expressão. Meu dilema em aula para escolher entre Verdade e Liberdade é o mesmo dilema entre aceitar que o outro tem o direito de expressar-se como bem entender, ou impor que pornografia infantil não pode ter perdão.

A cada dia faz mais sentido: “eu prefiro ser / essa metamorfose ambulante / do que ter aquela velha / opinião formada / sobre tudo”. Só mesmo quem é livre pode se dar ao luxo de transitar tanto pelos próprios valores, sentimentos e desejos, assim como eu faço.

Carpe Diem!

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2 Respostas para “Entendendo Raul Seixas”

  1. Plinio on 04 Aug 2005 at 3:06 am

    No mundo real não controlamos nada. Qualquer pessoa, usando sua liberdade realiza ações fantásticas, medíocres ou mesmo condenáveis no sentido de atentar contra a vida ou contra a dignidade dos seres humanos. A internet, mesmo que virtual, também é o mundo real. Por que deveria ter a liberdade controlada já que mesmo com aberrações convivendo diáriamente conosco o homem nunca deixou de realizar coisas fantásticas (como a própria internet) ?
    Sei que o assunto coloca questões delicadas e torna sensível nossos… digamos, valores morais. Mas afinal, é contra essas coisas que também queremos lutar. Negar uma iniciativa livre e aberta também é negar nossa própria liberdade.
    No próprio site do Freenet Project há uma frase emblemática que transcrevo para finalizar, deixando um abraço para o amigo e cyber-anfitrião.
    Plinio.

    “I worry about my child and the Internet all the time, even though she’s too young to have logged on yet. Here’s what I worry about. I worry that 10 or 15 years from now, she will come to me and say ‘Daddy, where were you when they took freedom of the press away from the Internet?’”
    –Mike Godwin, Electronic Frontier Foundation

    abraço Janio !

    [Reply]

  2. Israel Cefrin on 04 Aug 2005 at 7:12 am

    Interessante esses dois ultimos termos que ficaram na tua lista.Veio a minha mente uma frase dita há mais de 2000 anos:
    “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”
    — Jesus Cristo

    Creio que eu ficaria tb com esses dois últimos termos, mas teria escolhido a verdade como prioridade. :D
    []´s e continuando postando sobre as aulas, estou começando a me interessar mais sobre esse teu curso.

    [Reply]

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