Depois de dois meses sem pisar em Porto Alegre, e considerando a natureza tanto dos gaúchos em geral — hospitaleiros, amigos dos amigos, geniosos — não chegou a ser uma surpresa que dois casais de amigos resolvessem me levar para jantar numa noite dessas. Justamente na noite em que os quatro resolveram que seria ótima para pequenas DRs (discussões de relacionamento) mesmo que na presença de um convidado.
Naturalmente, eu não imaginava o que iria acontecer, e por isso topei de cara o convite. Os dois casais, cada um em seu próprio carro, chegaram na casa do meu amigo que me hospeda praticamente ao mesmo tempo. Rolou uma pequena discussão sobre com quem eu deveria ir, se com Joãozinho e Mariazinha ou se com Toninho e Aninha. Resolvi de maneira salomônica o impasse: separei os casais.
Calma, “separei” metaforicamente falando: sugeri que as gurias fossem num carro e os cuecas no outro. Embora o Joãozinho tenha errado o caminho para o restaurante, chegamos uns 15min antes das gurias, que tentavam culpar uma à outra pelo atraso. Durante esse tempo meus amigos contaram rapidamente, com toda a profundidade necessária, que seus casamentos estavam um saco.
No restaurante, a Mariazinha não parava de implicar com o Joãozinho: pegou salada de menos; não vai me tomar cerveja porque não tem ninguém pra dirigir depois; isso, ataca os doces, quando tu estiver diabético e perdendo as pernas feito tua mãe quero ver quem vai cuidar de ti; e outras amenidades de que não lembro no momento.
Toninho não estava em melhores condições com Aninha: comigo é só em restaurante chinelo, queria saber é onde ele leva as outras; se não tiver limite no cartão pra pagar a conta alguém empresta, mas comigo é que não foi gasto esse dinheiro; e outras manifestações de ciúmes absolutamente nada disfarçadas.
O jantar foi um porre, embora ninguém tenha bebido álcool. Em vez de me divertir com meus amigos que já fazia tanto tempo que não via, acabei presenciando sinais caricatos e dispensáveis das crises que viviam em seus casamentos.
Na hora de ir embora acabei aceitando a carona de Aninha e Toninho, porque a casa deles ficava mais perto do meu destino. E aí sim o bicho pegou: minha amiga resolveu me contar todos os supostos podres do marido (que é um santo, que vai do trabalho pra casa e de casa pro trabalho; quer dizer, desde solteiro ele foi meio babaca, nunca pegou ninguém, e isso me dá mais certeza de que ele nunca traiu a esposa do que qualquer outro comportamento). Ele ouviu tudo quieto, de vez em quando dando uma olhadinha pelo retrovisor como quem pede “para o mundo que eu quero descer”.
Chegando em casa, a Aninha resolveu filosofar.
— Escuta, eu não vou te pedir, mas se eu te pedisse, assim, pra você dizer o que acha que a gente deveria fazer do nosso relacionamento, você diria o quê?
— Que bom que você não vai me pedir isso, porque se pedisse eu teria que dizer ao Toninho pra te largar agora, enquanto você é nova e bonita, e tem chance de algum outro homem se interessar; seria muita crueldade ficar contigo nos melhores anos da tua juventude, e quando você estiver um bagaço ele te largar no mundo como quem esvazia a lixeirinha do carro. E pra você, eu diria pra buscar uma fagulha de dignidade dentro de si, e largar desse homem que não presta e não te respeita, que nada que diga ou faça vai te convencer de que ele é um cara ótimo. Mas que bom que você não vai perguntar, me poupa de ter de dizer tudo isso que eu não quero dizer.
É ou não é uma delícia poder brincar livremente com as possibilidades, sem correr o risco de magoar nossas amigas mais sensíveis?




[...] mesmo a vida tivesse obrigação de lhe ser “perfeitinhos”, então lhe convido a ler esse ótimo post do Jânio. Na verdade vale também para homens que tendem a esperar que o mundo fosse “certinho” [...]