Desde criança tive problemas na minha dentição, ocasionados pelo excesso de antibióticos a que fui submetido nos primeiros meses de vida. É claro que eu precisava deles porque era uma criança doente, mas não posso negar os seus efeitos sobre meu sorriso. Meus dentes decíduos (ou dentes de leite, para ir mais no popular) eram tão fracos que esfarelavam na mão. Aos seis para sete anos de idade eu não tinha um único dente bom na boca, todos eram podres, não tratáveis, e minha única escolha era aguardar que viessem os dentes permanentes.
Passou o tempo, os dentes mudaram, e desde o primeiro meus pais fizeram das tripas coração para pagar os melhores dentistas para mim. Sei que apesar dos sacrifícios eles me proporcionavam este “luxo” (sim, pois naquela época, no interior do Rio Grande do Sul, tratamento para os dentes era extração), pois acreditavam que embora meus primeiros dentes fossem péssimos, com tratamento adequado eu poderia vir a ter um sorriso lindo.
Modéstia à parte, meu sorriso ficou mesmo muito bonito, e num gesto de inconsciente e extrema gratidão sempre tive os maiores cuidados em casa com meus dentes, mas — devo confessar — sempre negligenciei o dentista. O resultado é que de tempos em tempos passo por alguns apertos, e recentemente estou passando por um processo de salvamento de um dente que estava praticamente dado por perdido.
Da mesma forma, herdei um vício de meu pai: tudo que é notinha, papelzinho, anotação, cupom fiscal, ingresso de cinema, extrato bancário, senha de fila, ou o que for, acaba indo para minha carteira, que em questão de horas está entupida de papeizinhos, diariamente.
É claro que com os papeizinhos da carteira tenho um tratamento muito diferente do tratamento que dispenso aos meus dentes.
Diariamente, ou no máximo a cada dois dias, eu faço uma faxina geral na carteira. Tudo é revisado sem exageros de meticulosidade, e o que possa ser consultado posteriormente pela Internet, ou que não careça de nenhum arquivamento outro, vai para o lixo.
Já em meus dentes faço investimentos altos para mantê-los saudáveis, bonitos. O dente que está em processo de salvamento, por exemplo, já havia passado por um tratamento de canal, e a restauração caiu; com isso o dente ficou com um buraco aberto, sem nervo para doer, e se não fosse a competência das minhas dentistas, se elas fossem de uma escola um pouco mais imediatista, em vez de fazer o implante que estou fazendo para recuperar o dente elas teriam era optado pela extração.
Inclusive, nesta semana tive de passar por uma cirurgia que ainda não parou de doer, para remover o excesso de gengiva que estava dificultando o acabamento do implante (a colocação da coroa).
Mas não quero aqui falar de outra coisa senão relacionamentos. Nossos relacionamentos podem ser papeizinhos ou ser dentes. Depende exclusivamente da gente escolher como cada um vai figurar na nossa vida.
Vejo muito pela Internet sites de aconselhamento que, regra geral, sugerem que as pessoas descartem relacionamentos como eu descarto papeis usados da carteira.
Mas eu, particularmente, acho que relacionamentos talvez devam ser tratados mais como dentes.
Não devemos negligenciar esforços quando se trata de relacionamentos que valham a pena. Afinal, um relacionamento (seja ele entre amantes, cônjuges, irmãos, amigos, colegas, não importa) só existe devido às concessões que cada pessoa faz a cada instante.
Imagine uma situação: a namorada havia marcado um encontro com o namorado; o tempo passando, e nada de o rapaz aparecer; lá pela quarta ou quinta hora de atraso o rapaz telefona com uma história absurda, dizendo que… — sei lá! — que perdeu a chave do carro no estacionamento e estava até aquela hora procurando.
O que você faria no lugar da moça?
Só há duas opções dignas: ou ela acredita no namorado, dá a ele, do fundo de seu coração, seu apoio e compreensão, e continua o namoro; ou ela duvida da história dele, dá-lhe um olímpico pé na bunda e faz a fila andar.
Compreender o namorado pode ser doloroso como uma cirurgia nas gengivas, e depois de manifestar sua solidariedade à situação improvável — mas quiçá verdadeira — do consorte a dor pode continuar martelando, latejando, por mais alguns dias.
Mas no fim das contas há que se considerar o ganho de salvar um dente, e apesar de tudo permanecer na inteireza e na unidade com quem quer que sjea.





Meus dentes não foram tão bem cuidados. Dois deles se foram pra terra da fada do dente por puro desleixo meu. Mas os poucos amores e amigos? Hah, desses eu cuido. Bela analogia, meu caro.
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