Como o Peixe Urbano acabou com o meu lazer
Quem me conhece mais de perto já sabe que as opções de lazer que me agradam são as que a moçada normalmente chamaria de “programa de velho”: ficar em casa, ir ao cinema, sair para comer. Aliás, meus amigos mais próximos também são assim, e no fim das contas o que mais a gente faz, justamente, é sair para comer.
Depois de passar uma semana fora, ao voltar para o Rio de Janeiro meus amigos me convidaram para sair para jantar. Aceitei, e decidimos juntos ir à Fazendola, uma excelente pizzaria que tem em Ipanema.
Já fui mais de uma vez à Fazendola, e sempre saí de lá cheio de elogios: pizza feita na pedra, massa fininha, saborosa, bebida gelada, atendimento de primeira, preço justo. Nada mais natural que eu aceitasse o convite com um sorriso na cara.
Lá chegando, uma fila maior do que o normal para uma quinta-feira fora da alta temporada. Nem desconfiamos do motivo, aguardamos a nossa vez e entramos no restaurante.
A primeira coisa que o garçom nos perguntou foi se tínhamos o voucher do Peixe Urbano. Pedimos nossas bebidas, e esperamos. E esperamos. Esperamos…
A casa lotada, atendentes correndo desesperados, a produção não dando conta da demanda, e nada de a gente ser atendido.
Quando começamos a ser atendidos, o que havia de melhor era o refrigerante com bastante gelo, pois a cerveja e o chopp estavam quentes, e a variedade de pizzas estava mirrada. Nem parecia a Fazendola a que estávamos habituados!
Fiquei muito curioso com a pergunta do garçom na nossa chegada, e perguntei a ele por que ele havia perguntado. Ele me disse que aquela loucura toda, aquela quantidade absurda de gente, era resultado de uma promoção junto ao Peixe Urbano, que dava direito ao rodízio de pizza com 50% de desconto (de R$ 20,00 por pessoa por apenas R$ 10,00 — mais barato que as pizzarias “genéricas” da Cristóvão Colombo em Porto Alegre).
Para quem não sabe, os assim chamados clubes de compras são empresas que negociam grandes volumes de compras com empresas de comércio e serviço, e dão aos seus associados a possibilidade de adquirir os produtos ou serviços com um vultoso desconto (há casos em que o desconto oferecido é de mais de 70%). Desde o início dessa nova “mania” eu nunca gostei da ideia, pois é um jogo perde-perde: qualquer comerciante sabe que não pode vender com preço igual ou inferior ao custo, pois necessita do lucro para sobreviver (ou enriquecer, pouco importa). Essa ânsia de obter descontos absurdos só evidencia um desejo, por parte dos consumidores, de tirar o sangue do prestador de serviço (e otário o comerciante que cair nesse conto).
É comum lermos relatos de sócios de clubes como o Peixe Urbano que são maltratados nos estabelecimentos comerciais (o que, definitivamente, não aconteceu na Fazendola: os atendentes fizeram o possível e o impossível para atender todos os clientes que lá estavam, independente de quem pagava o preço cheio ou o preço com desconto).
No nosso caso, de pagantes do valor integral, ficou um gosto muito ruim na pizza: um gosto de ter visto o restaurante invadido por uma horda de metidos a espertos — que no fim estavam exercendo um direito seu —, o que levou à destruição do que deveria ter sido um jantar agradável na companhia de pessoas queridas.
Na saída, tomei o cuidado de certificar-me se a Fazendola voltaria a fazer promoções junto ao Peixe Urbano. A resposta que obtive foi de nunca mais. Ótimo, pois assim vou poder continuar frequentando minha pizzaria favorita. Caso a resposta da moça tivesse sido diversa, eu certamente jamais botaria meus pés naquele restaurante outra vez.
Atenção: o texto acima ampara-se no direito fundamental à manifestação do pensamento, previsto nos arts. 5º, IV e 220 da Constituição Federal de 1988. Vale-se do “animus narrandi”, protegido pela lei e pela jurisprudência (conferir AI nº 505.595, STF).

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