05 Mar 2008

A Lista (Oswaldo Montenegro)

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Não sei mais quando foi a primeira vez que ouvi esta canção, mas lembro que fiquei muito emocionado. Talvez tenha sido a primeira vez que eu tenha olhado para trás e avaliado o meu passado, medido o peso das minhas escolhas e suas conseqüências. Com certeza faz mais de dez anos.

Hoje (na verdade na segunda, esse post ficou programado no WordPress para publicação no futuro), por acaso, ouvi uma menina no metrô assoviando a música e fiquei com vontade de refazer a mesma análise de uma década atrás, e concluí que nos últimos dez anos eu mudei menos do que eu imaginava ter mudado.

Vejamos.


Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais…

Na verdade, meus amigos de hoje são praticamente os mesmos de dez anos atrás. Alguns, aqueles com quem eu passei a me relacionar por força do trabalho que desempenhávamos na mesma empresa, acabaram ficando mais afastados, mas de vez em quando rola um telefonema, um e-mail, um almoço…

Outros estão no MSN, no Orkut, a um clique de distância. A gente não precisa ficar se falando o tempo todo pra saber que se ama, que torce pela felicidade e pelo sucesso um do outro.

Contudo, os amigos de antes de dez anos, de antes de eu vir morar em Porto Alegre, destes perdi praticamente todo o contato. Sinto saudades, quando dá vou revê-los, mas eles evoluíram por caminhos muito diferentes dos meus. A gente não se reconhece mais.

Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar…

Aqui ele pega pesado.

Na verdade, apenas um amor (no sentido de relacionamento) durou pra sempre (ou, pelo menos, até a morte nos separar). Os demais duraram o quanto tinham de durar.

Agora, com relação aos sonhos, eu não lembro de nenhum sonho de dez anos atrás, a não ser o que eu ainda carrego comigo, e que é a motivação pela qual eu trabalho 16h por dia. Coisa pouca, apenas uma volta ao mundo sem previsão de término.

Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?

Quanto à auto-imagem, devo admitir que tenho uma péssima memória. Não sei como eu era há dois, cinco, dez anos. Na verdade, quem me conhece há um pouco mais de tempo deve ter notado que vira e mexe eu mudo o visual. Depois de anos usando lente de contato, estou de óculos novamente. No meu perfil do Orkut tem quatro fotos minhas, nenhuma retratando mais minha aparência atual.

Da mesma forma, eu não consigo me imaginar no futuro. Não posso fazer uma previsão de mim mesmo aos 50 anos de idade, aos 60. Quando mais jovem eu pensava que isso era um sinal de que eu não chegaria a idade tão “avançada”, mas hoje vejo que é apenas devido à minha natureza de camaleão, certamente aprendida nas refregas que levei da vida.

Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?

Os mistérios, ah, os mistérios… Não tenho mais saco pra eles. No máximo um filminho de suspense de vez em quando; mas “grandes mistérios da humanidade”, sinais secretos, juramentos, sociedades secretas, símbolos… Só de escrever já dá uma canseira.

O que é real não tem mistério. A Verdade é simples, direta, e não entende quem não quer ou não pode. Mas ela não se esconde, e mesmo com toda a perseguição que possa ter sofrido no decorrer dos séculos de antes até depois da sanguinária Idade Média, continua firme e forte sustentando o Universo.

Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?

Ter que, acho que não tive nunca; mas como qualquer ser humano fui treinado para mentir, para tentar agradar, e nessa crença de que o que as pessoas esperavam de mim era algo diverso do que eu tinha (ou tenho) a oferecer, certamente acabei comentendo muitos enganos, muitos erros. Mas assim como os mistérios, não vejo mais ganho nenhum em ficar listando erros do passado, a não ser que seja para retificá-los. O que não pode ser retificado, remonta àquele velho ditado: o que não tem solução solucionado está.

Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?

Papo para outro post, mas em resumo devo dizer que os Anos 80 nunca estiveram tão presentes na minha vida quanto agora. A razão é bem simples: foi nessa época que vivi a melhor fase da vida de um ser humano, pois ele não é mais criança (ou adolescente), tem toda a “capacidade” do adulto, e todos os sonhos juvenis intactos, imaculados. Ouvir, cantar, assoviar música boa de vinte, vinte e cinco anos atrás ajuda a resgatar um pouco desse entusiasmo que os anos vão soterrando.

Quanto às pessoas que eu amava, continuo amando todas. Não deixei de amar ninguém. Será que das que eu acredito que me amam, estou enganado com alguma?

Para finalizar este post do tipo que só é possível num blog pessoal mesmo, do tipo caderninho de guria, deixo o videoclipe legendado, que vai durar até que alguém o remova do YouTube.

Technorati : , ,

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5 Respostas para “A Lista (Oswaldo Montenegro)”

  1. Sidnei on 09 Mar 2008 at 5:22 pm

    Vira e mexe faço algo parecido com essa lista. Ela às vezes toma forma de análise, esporro, dica ou epifania. Essa músca do Oswaldo eu não conhecia até 2002, quando me foi apresentada por um desses amigos fugazes de internet (eu ainda usava o ICQ; nem sei se aquele “oh-oh” irritante existe mais). O auto-denominado bardo tem seus momentos “oh-sou-a-criatura-mais-sábia-do universo-conhecido”, mas nessa canção ele foi perfeito.
    Amigos? Foram tão poucos os que fiz de verdade… no máximo pessoas que sabem meu nome e me deixam extremamente envergonhado por não me lembrar sequer da feição. Posso contar quantos eu fiz de 1998 pra cá; o mais significativo e mais profundo foi um sujeito que, olha que coincidência, mora há mais de 1000 quilômetros de mim e que amo como irmão de sangue.
    Sonhos? Como qualquer zé-ruela nascido em uma família remendada, meus devaneios eram todos de ordem material. Ter um videogame, um computador, um som transado, um par de tênis da marca X. Sequer imaginava que o maior deles, o mais relevante, escondia-se nos cadernos que eu lotava com esferográficas e nos blogs que mantive e mantenho: ser um escritor. Nem a mediocirdade me assustava; afinal, se Paulo Coelho pode, por que não eu? (Tá, essa foi cruel)
    Auto-reconhecimento? Fui minha própria esfinge até pouco tempo e quando me descobri, me assustei. Porém, mais divertido foi quando assustei os outros…
    Mistérios, amores, mentiras? Todo o tempo, o tempo todo. Mentia e amava. Daí só amava, depois menti sobre o amor e criei mais enigmas. Hoje, passado todo esse tempo, ainda não sei o que fazer. Só sei que amo anida mais e minto cada dia menos.
    Como disse Roberto Carlos, aquele que foi um dos ícones da música brasileira e não esse que se afunda em cruzeiros e proíbe biografias, hoje eu ouço as canções que você fez pra mim e comparo com que as fazem hoje. Ah, que saudade do meu ecletismo; talvez hoje, se eu ainda não tivesse adquirido um pouco de senso crítico, poderia curtir excrementos como a dança do créu ou esses emos fingindo não ser os novos Waldicks Sorianos sem o mesmo bom humor.
    É, eu te falei que isso iria ficar comprido. Mas nada que uma moderação não apague, né? Daqui a dez anos faremos mais uma lista. Até lá prometo ser mais conciso.
    Beijo, abraço. E algumas batidas de meu coração.

    [Reply]

  2. Ana Carolina Jaskulski on 01 Apr 2008 at 8:01 pm

    Ai que alegria ler isso aqui :D  não é muito fácil encontrar pessoas que também gostem de Oswaldo Montenegro….  eu amo (mais por causa das letras do que pelas melodias).Tem épocas que A Lista é minha favorita, ora A Palo Seco, ora Lua e Flor…  uma delícia.Na verdade, bem de verdade, é Sem Mandamentos que ando escutando com mais freqüência - até tenho que fazer um post  sobre isso (acho um pecado que tão pouca gente conheça essa linda poesia)

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  3. Eugenia on 13 Apr 2008 at 9:34 am

    Janio
    Recebi o e.mail de uma amiga contendo esse vídeo como mensagem. Fiquei fascinada porque adoro Oswldo Montenegro. Como o perdi , resolvi buscar no google e encontrei mais uma preciosidade: seu comentário sobre a letra da música. Parabéns, foi muito bom ter lido o que você escreveu.
    Grande abraço
    Eugenia - Vila Velha - Espírito Santo

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  4. Lucas on 07 Jun 2008 at 2:17 pm

    Fico fascinado com suas palavras. Muito obrigado por tecer estes tão sinceros comentários sobre a canção.

    Abraço

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  5. Lu Monte on 11 Dec 2008 at 7:29 pm

    Tenho um post sobre essa música. Beeeem mais singelo que o seu - na verdade, se bem me lembro, apenas uma citação das primeiras frases, movida por uma decepção com amigos. Qualquer hora, faço um nesse ritmo e te linko como fonte de inspiração. :)

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