A arte de iludir


O título do presente texto provavelmente não tem muito a ver com a história (factual) que vou contar a seguir. só o escolhi porque tem uma episódio martelando na minha cabeça até agora: o episódio S04E17 de Heroes se chama “The Art of Deception”, que os legendadores traduziram (mal) para “A Arte da Desilusão” (vai ver pensaram que Decepção era óbvio demais, então estaria errado). Ora, “deception” vem do verbo to deceive, que até onde eu sei significa iludir, enganar, ludibriar, engambelar. Quando um mágico faz um truque no palco, isso é “deception”. Já quando uma pessoa decepciona, desaponta outra, é “disappointment”.

Mas, contudo, todavia, entretanto, porém, entre pleonasmos tergiverso.

Quando eu tinha 17 para 18 anos, tinha um amigo inseparável (todo mundo normal tem pelo menos um amigo inseparável nessa época — eu tinha dois, mas só um importa agora). O Leandro era (e ainda é, claro) um pouquinho mais velho, e a grande preocupação dele na época era ensinar-me a guiar.

Era época de eleições, e o sócio do meu pai era envolvido com política, políticos e politicagens. O candidato a governador tinha-o designado como coordenador de campanha para a minha cidade, especificamente. Pela proximidade, ele me convidou a trabalhar como cabo eleitoral, deixando ao meu dispor um fusca com o tanque cheio todo dia para eu encontrar “minha turma” e convencê-los a fazer campanha também. Como eu não dirigia, avisei que traria o Leandro para trabalhar comigo, e fui muito apoiado para montar minha “equipe”. Além do fusca a gente ainda ganhava um dinheirinho bem interessante para ajudar nas despesas. Dinheiro esse que, claro, a gente torrava como se não houvesse amanhã.

E assim o Leandro me ensinou a dirigir no fusquinha do partido. Todas as manhãs a gente pegava a viatura com o tanque cheio, uma tonelada mais ou menos de panfletos, e saía para fazer campanha. OK, eu confesso, a gente dava um jeito de se livrar logo do material do candidato, e passava o resto do dia ou o resto da gasolina do fusca — o que acabasse primeiro — passeando pra tudo quanto era lado.

Um dia o coordenador da campanha começou a querer números, e acabamos inventando um monte de gente que estaria trabalhando conosco, mas é claro que não estava.

—Bem, rapazes, vejo que vocês têm forte liderança entre os jovens; nós gostaríamos de conhecer esta equipe que vocês formaram, e pra isso no dia tal vamos oferecer um almoço pra vocês e pra eles.

Recebemos a notícia já confirmando que na data marcada haveria pelo menos dez dos nossos “liderados” no almoço. Saímos da reunião e fomos de casa em casa, convidando cada um dos nossos amigos mais de fé para a boca livre.

— Não tem que dizer nada, deixa que o Leandro e eu falamos, vocês só comem e concordam conosco — orientamos cada um.

No dia do almoço, lá estávamos o Leandro, eu e mais pelo menos uns doze caras da nossa idade, o amigo de meu pai e um outro coroa que era “de Porto Alegre”, responsável pela campanha do dito cujo candidato em todo o interior do RS. O Leandro e eu falávamos mais do que comíamos, nossos amigos só comiam.

— Janio — disse-me o tal coordenador geral— a gente quer ouvir cada um dos teus amigos.

Ante esse pedido tão desconcertante acabamos convidando cada um dos nossos amigos esfomeados a dar uma palavrinha, e quase todos tinham entendido o que estava acontecendo, e só repetiram o que o Leandro e eu já havíamos falado. Quase todos, porque tinha um que não abria o bico pra nada, apesar da insistência dos coroas.

Este que não queria falar nada, o Clóvis, era jogador de futebol numa categoria de base, o pai viúvo dava um duro danado para propiciar ao filho ir treinar num grande clube da serra gaúcha. O que ele tinha de talento com uma bola nos pés (ou nas mão, já que ele era goleiro) faltava de traquejo para lidar com o próprio cérebro.

Como não tinha jeito de anular o comando anterior que eu tinha dado ao autômato Clóvis, eu mesmo o autorizei.

— Fala, Clóvis, o homem quer te ouvir — falei olhando em seus olhos.

— Falar qualquer coisa? — perguntou Clóvis.

— Sim, qualquer coisa.

— Ah, então nesse caso me passa um prato pá botá os ôsso!

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